segunda-feira, 3 de junho de 2013

A culpa é das estrelas- John Green- Parte 4

CAPÍTULO DOZE
bri os olhos às quatro horas da manhã holandesa, completamente acordada. Todas as tentativas de voltar a dormir foram em vão, então fiquei deitada ali com o BiPAP bombeando o ar para dentro e puxando o ar para fora, viajando nos ruídos de dragão mas desejando ser capaz de escolher de que jeito respirar.
Reli o Uma aflição imperial até a mamãe acordar e rolar para o meu lado, lá pelas seis horas. Ela aconchegou a cabeça no meu ombro, o que foi um pouco desconfortável e ligeiramente augustiniano.
O hotel serviu o café da manhã no nosso quarto e, para minha total satisfação, continha frios e muitas outras transgressões à composição do café da manhã norte-americano. O vestido que eu tinha planejado usar no encontro com o Peter Van Houten passou à frente dos outros na fila quando do jantar no Oranjee; por isso, assim que saí do banho e consegui deixar o cabelo mais ou menos liso, passei uma meia hora debatendo com a mamãe sobre as diversas vantagens e desvantagens dos figurinos disponíveis, até que resolvi me vestir o mais parecida com a Anna em UAI possível: Chuck Taylors, calça jeans escura do jeito que ela sempre usava e uma camiseta de malha azul-claro.
A estampa da camiseta era a reprodução de um famoso quadro surrealista de René Magritte, no qual ele pintou um cachimbo e escreveu embaixo, em letras cursivas: Ceci n’est pas une pipe. (‚Isto não é um cachimbo.‛)
— Eu não consigo entender essa camiseta — mamãe falou.
— O Peter Van Houten vai entender, acredite. Em Uma aflição imperial há, tipo, umas sete mil referências ao Magritte.
— Mas isto é um cachimbo.
— Não, não é — falei. — É uma ilustração de um cachimbo.
A
Entendeu agora? Todas as representações de um objeto são inerentemente abstratas. É muito inteligente.
— Como foi que você amadureceu tanto que consegue entender coisas que confundem sua velha mãe? — ela perguntou. — Parece que foi ontem que eu estava explicando para uma Hazel de sete anos por que o céu é azul. Você me achou um gênio naquela época.
— Por que o céu é azul? — perguntei.
— Porque sim — ela respondeu, e eu ri.
Quanto mais perto das dez horas ia chegando, mais ansiosa eu ficava: ansiosa para ver o Augustus; ansiosa para conhecer o Peter Van Houten; ansiosa ao imaginar que minha roupa talvez pudesse não ter sido uma boa escolha; ansiosa e com medo de não conseguirmos achar a casa certa, já que todas as casas em Amsterdã se parecem; ansiosa e temerosa de nos perdermos e não encontrarmos o caminho de volta para o Filosoof; ansiosa ansiosa ansiosa. Mamãe ficava tentando bater papo comigo, mas eu não conseguia prestar atenção nela direito. Eu já estava para pedir a ela que fosse até o andar de cima ver se o Augustus estava acordado, quando ele chegou.
Abri a porta. Ele olhou minha camiseta e sorriu.
— Muito engraçado — ele disse.
— Não chame meu peito de engraçado — retruquei.
— Eu estou bem aqui — mamãe disse lá de trás.
Mas eu tinha feito o Augustus enrubescer e ficar tão sem ação que finalmente pude sustentar o olhar dele.
— Tem certeza de que não quer ir também? — perguntei à mamãe.
— Vou visitar o Rijksmuseum e o Vondelpark hoje — ela respondeu. — Além do mais, não consigo gostar do livro dele. Sem querer ofender. Agradeça a ele e à Lidewij por nós, tá?
— Tá — respondi. Abracei a mamãe e ela beijou a minha cabeça bem acima da orelha.
* * *
A casa branca e geminada de Peter Van Houten ficava, saindo do hotel, logo depois da curva, na Vondelstraat, de frente para a área do parque. Número 158. O Augustus me deu a mão, carregou o carrinho do oxigênio com a outra, e nós subimos os três degraus que levavam até a porta pintada de verniz azul e preto da casa. Meu coração batia acelerado. Uma porta fechada era a distância entre mim e as respostas com as quais vinha sonhando desde a primeira vez que li a última página incompleta.
Dava para ouvir as batidas do som de um baixo, alto o suficiente para fazer tremer os parapeitos das janelas. Fiquei me perguntando se o Peter Van Houten teria um filho fã de rap.
Segurei a aldraba em formato de cabeça de leão e bati à porta, hesitante. O som do baixo continuou.
— Talvez ele não consiga ouvir por causa da música? — o Augustus comentou.
Ele pegou a cabeça do leão e bateu bem mais forte.
A música parou de tocar e foi substituída pelo som de passos trôpegos. Uma das trancas foi destravada. E mais outra. A porta se abriu com um rangido. Um homem barrigudo, de cabelo ralo, bochechas caídas e a barba de uma semana por fazer estreitou os olhos por causa da luz do sol. Ele usava um pijama azul-bebê, como um personagem de filme antigo. O rosto e a barriga eram tão redondos e os braços, tão magros, que ele parecia uma bola de massa de pão com quatro varetas enfiadas.
— Sr. Van Houten? — o Augustus perguntou, a voz esganiçando um tiquinho.
A porta se fechou com um estrondo. De trás dela, ouvi uma voz aguda e gaguejante gritar: ‚LIII-DEE-VI-GUE!‛ (Até aquele momento, eu vinha pronunciando o nome da assistente dele como li-de-vi-ge.) Nós conseguíamos escutar tudo através da porta.
— Eles estão aqui, Peter? — uma mulher perguntou.
— Estão… Lidewij, há duas aparições adolescentes atrás da porta.
— Aparições? — ela perguntou, com uma melodia cadenciada tipicamente holandesa.
O Van Houten respondeu rápido.
— Fantasmas espectros demônios visitantes pós-terrestres aparições, Lidewij. Como pode uma pessoa que almeja obter um diploma de pós-graduação em literatura norte-americana demonstrar um conhecimento tão abominável da língua inglesa?
— Peter, aqueles não são visitantes pós-terrestres. Eles são o Augustus e a Hazel, os jovens fãs com os quais você vem se correspondendo.
— Eles são quem?! Eles… eu pensei que estivessem nos Estados Unidos da América!
— Sim, mas você os convidou para vir até aqui, se bem se lembra.
— Você sabe por que eu me mudei dos Estados Unidos, Lidewij? Para que nunca mais precisasse me encontrar com nenhum norte-americano.
— Mas você é norte-americano.
— Algo aparentemente incurável, imagino. Mas, quanto a esses norte-americanos aí, você deve pedir-lhes que vão embora imediatamente, que houve um terrível engano, que o bendito Van Houten fez um convite retórico, não a sério, que esse tipo de convite deve ser considerado algo simbólico.
Achei que fosse vomitar. Virei para o Augustus, que olhava vidrado para a porta, e vi os ombros dele se encurvando.
— Não farei isso, Peter — a Lidewij respondeu. — Você deve recebê-los. Você deve. Você precisa vê-los. Precisa ver como seu trabalho é importante.
— Lidewij, você me manipulou, de caso pensado, para provocar este encontro?
Um silêncio demorado se seguiu e, por fim, a porta se abriu de novo. Ele virou a cabeça metronomicamente do Augustus para mim, ainda com os olhos estreitados.
— Qual de vocês é o Augustus Waters? — perguntou.
O Augustus levantou a mão devagar. O Van Houten assentiu com a cabeça e disse:
— Você já resolveu a questão com aquela franguinha?
E foi quando vi, pela primeira e única vez, um Augustus Waters
totalmente sem palavras.
— Eu — ele começou —, humm, eu, Hazel, humm. Bem.
— Este garoto parece ter algum tipo de retardamento — o Peter Van Houten disse para a Lidewij.
— Peter — ela o censurou.
— Bem — disse o Peter Van Houten, estendendo a mão para mim.
— É um prazer sem igual conhecer criaturas tão ontologicamente improváveis.
Apertei a mão inchada dele e, em seguida, ele e o Augustus se cumprimentaram. Fiquei me perguntando o que a palavra ontologicamente significaria. Mesmo sem saber o que era, gostei dela. O Augustus e eu estávamos juntos no Time das Criaturas Improváveis: nós e os ornitorrincos.
É claro que eu tinha esperado que o Peter Van Houten fosse mentalmente são, mas o mundo não é uma fábrica de realização de desejos. A coisa mais importante era que a porta fora aberta e eu estava entrando ali para descobrir o que acontece depois do término do Uma aflição imperial. E isso era o suficiente. Seguimos ele e a Lidewij para dentro da casa, passamos por uma enorme mesa de jantar de madeira de carvalho com apenas duas cadeiras e chegamos a uma sala de estar estranhamente estéril. Parecia um museu, só que não havia quadro algum nas paredes brancas e vazias. Tirando um sofá e uma poltrona reclinável, ambos feitos de uma combinação de aço e couro preto, a sala parecia deserta. De repente, reparei em duas sacolas de lixo pretas grandes, cheias e lacradas com aqueles arames retorcidos, atrás do sofá.
— Lixo? — balbuciei para o Augustus, baixinho, achando que ninguém mais ouviria.
— Cartas de fãs — o Van Houten respondeu ao se sentar na poltrona reclinável. — Dezoito anos delas. Não posso abri-las. É aterrorizante. As de vocês foram as primeiras missivas às quais respondi, e vejam aonde isso me levou. Para ser sincero, acho a realidade dos leitores totalmente insossa.
Aquilo explicava por que o Van Houten nunca havia respondido às
minhas cartas: ele não tinha lido nenhuma. Fiquei me perguntando por que guardava todas elas, ainda mais numa sala de estar formal e quase vazia. O Van Houten colocou os pés em cima do pufe à frente da poltrona reclinável e cruzou os chinelos. Ele apontou para o sofá. O Augustus e eu nos sentamos lado a lado, mas não perto demais.
— Vocês gostariam de tomar café da manhã? — a Lidewij perguntou.
Comecei a responder que já tínhamos comido quando o Peter me interrompeu.
— É cedo demais para o café da manhã, Lidewij.
— Bem, eles vêm dos Estados Unidos, Peter. Já passa do meio-dia para os dois.
— Neste caso é tarde demais para o café da manhã — ele disse. — Porém, já que passa do meio-dia para eles, deveríamos então nos servir de um drinque. Você toma uísque? — perguntou para mim.
— Se eu… hummm… não… obrigada — falei.
— Augustus Waters? — o Van Houten perguntou, balançando a cabeça para o Augustus.
— É… Não, obrigado.
— Para mim, apenas, Lidewij. Uísque e água, por favor. — O Peter transferiu a atenção para o Gus, perguntando: — Você sabe como preparamos uma dose de uísque escocês com água nesta casa?
— Não, senhor — o Gus respondeu.
— Colocamos o uísque num copo, depois pensamos na água, e então misturamos o uísque de verdade com a ideia abstrata da água.
— Talvez seja melhor tomar alguma coisa de café da manhã antes, Peter — a Lidewij disse.
Ele olhou para nós e sussurrou, fingindo que estava contando um segredo e que ela não podia ouvi-lo:
— A Lidewij acha que eu tenho problemas com a bebida.
— E eu acho que o sol nasceu — a Lidewij respondeu.
Mesmo assim, ela se encaminhou para o bar na sala de estar, pegou uma garrafa de uísque, serviu o copo até a metade e levou até ele. O Peter Van Houten tomou um gole e se ajeitou na cadeira, sentando-se ereto.
— Um drinque desta qualidade merece uma postura melhor — ele disse.
Fiquei consciente da minha própria postura e me endireitei um pouco no sofá. E ajeitei a cânula. Papai sempre dizia que é possível julgar as pessoas pelo modo como tratam garçons e assistentes. Nesse aspecto, o Peter Van Houten era, provavelmente, o cara mais idiota do mundo.
— Então você gosta do meu livro — ele disse para o Augustus depois de outro gole.
— Sim — respondi pelo Augustus. — E, sim, nós… bem, o Augustus, ele usou o Desejo dele para conhecer você, para que nós pudéssemos vir aqui e você pudesse nos contar o que acontece depois do fim do Uma aflição imperial.
O Van Houten não disse uma palavra. Apenas deu uma golada na bebida. Depois de alguns instantes, o Augustus falou:
— Seu livro foi mais ou menos o que nos uniu.
— Mas vocês não são um casal — ele comentou, sem me olhar.
— O que quase nos uniu — falei.
Então ele olhou para mim.
— Você se vestiu igual a ela de propósito?
— Igual à Anna? — perguntei, e ele ficou só me encarando. — Pode-se dizer que sim.
Ele esvaziou o copo e fez uma careta.
— Eu não tenho problemas com a bebida — ele anunciou, a voz desnecessariamente alta. — Eu tenho uma relação churchilliana com o álcool: posso contar piadas, governar a Inglaterra e fazer o que quiser. Exceto deixar de beber.
Ele olhou para a Lidewij e fez um movimento com a cabeça em direção ao copo. Ela o pegou e andou de volta até o bar.
— Só a ideia de água, Lidewij — ele instruiu.
— Está bem, já entendi — ela disse, o sotaque quase como o nosso.
A segunda dose chegou. O Van Houten se empertigou todo de novo como forma de demonstrar respeito. E tirou os chinelos. Seus pés eram realmente feios. Ele estava arruinando a concepção que eu tinha de um
gênio autoral. Mas possuía as respostas.
— Bem, humm — falei —, primeiro nós queremos agradecer pelo jantar de ontem à noite e…
— Nós pagamos o jantar para eles ontem à noite? — o Van Houten perguntou para a Lidewij.
— Sim. No Oranjee.
— Ah, sim. Bem, acreditem em mim quando digo que vocês não têm de me agradecer, e sim à Lidewij, que possui um talento excepcional quando se trata de gastar o meu dinheiro.
— O prazer foi todo nosso — a Lidewij disse.
— Bem, obrigado, de qualquer forma — o Augustus falou.
Deu para sentir um quê de irritação na voz dele.
— Então aqui estou — o Van Houten disse após alguns instantes. — Quais são as suas perguntas?
— Humm — o Augustus murmurou.
— Ele parecia tão inteligente nas cartas — o Van Houten disse para a Lidewij, a respeito do Augustus. — Talvez o câncer tenha criado uma cabeça de ponte no cérebro dele.
— Peter — a Lidewij disse, devidamente horrorizada.
Eu também estava horrorizada, mas havia algo de interessante num cara tão vil que se recusava a nos tratar de forma condescendente.
— Temos mesmo algumas perguntas — eu disse. — Falei delas em meu e-mail. Não sei se você lembra.
— Não lembro.
— A memória dele está comprometida — a Lidewij disse.
— Se ao menos minha memória se comprometesse… — o Van Houten retrucou.
— Então, nossas perguntas — repeti.
— Ela usa o ‚nós‛ da realeza — o Peter falou, para ninguém em particular.
Outro gole. Eu não sabia como era o gosto do uísque, mas se fosse de alguma forma parecido com champanhe, não dava para entender como ele conseguia beber tanto, tão rápido e tão cedo.
— Você conhece o paradoxo da tartaruga de Zenão? — ele perguntou para mim.
— Nossas perguntas têm a ver com o que acontece com os personagens depois do fim do livro, mais especificamente…
— Você presume de forma errônea que eu precise ouvir a sua pergunta para que possa respondê-la. Já ouviu falar de Zenão, o filósofo?
Fiz ligeiramente que não com a cabeça.
— Ai de mim. Zenão era um filósofo pré-socrático que, dizem, elaborou quarenta paradoxos associados à cosmovisão a partir de pensamentos desenvolvidos por Parmênides… de Parmênides você já ouviu falar, naturalmente — ele disse, e eu fiz que sabia quem era Parmênides, mesmo não sabendo. — Graças a Deus! — ele falou. — Zenão se especializou em revelar as imprecisões e simplificações de Parmênides, o que não foi difícil, pois Parmênides estava sempre redondamente enganado em quase tudo. O valor de Parmênides é o mesmo que o do amigo que escolhe o cavalo errado toda vez que você o leva ao hipódromo. Mas o paradoxo mais conhecido de Zenão… Espere um instante… Qual é o seu grau de familiaridade com o hip-hop sueco?
Eu não sabia dizer se o Peter Van Houten estava brincando ou não. Depois de um tempo, o Augustus respondeu por mim:
— Limitado.
— Está bem, mas presumo que você conheça o álbum mais influente de Afasi och Filthy intitulado Fläcken.
— Não, nós não conhecemos — respondi por nós dois.
— Lidewij, coloque ‚Bomfalleralla‛ para tocar imediatamente. A Lidewij andou até um MP3 player, girou um pouquinho o botão circular e apertou uma tecla. Um rap começou a reverberar em todas as direções. O som era bastante familiar, exceto por ser cantado em sueco.
Terminou e o Van Houten olhou para nós, na expectativa, seus olhinhos o mais arregalados que conseguiam ficar.
— E então? — perguntou.
— Então?
Aí eu falei:
— O senhor deve nos desculpar, mas nós não falamos sueco.
— Bem, é claro que não falam. Eu também não. Quem é que raios fala sueco? O importante não é o que as vozes estão dizendo, o que quer que seja, mas o que as vozes estão sentindo. Vocês certamente sabem que só existem duas emoções, amor e medo, e que o Afasi och Filthy navega entre elas com o tipo de facilidade que não se encontra no rap fora da Suécia. Querem que eu bote para tocar de novo?

— Isso é uma piada? — o Gus perguntou.
— Como assim?
— Isso é algum tipo de performance? — Ele olhou para a Lidewij e perguntou: — É isso?
— Creio que não — a Lidewij respondeu. — Ele não é sempre… esse é um jeito incomum…
— Ah, cale a boca, Lidewij. Rudolf Otto disse que se você não tiver vivenciado o numinoso, se não tiver experimentado um encontro irracional com o mysterium tremendum, então o livro dele não é para você. E eu lhes digo, jovens amigos, que se não conseguem ouvir a reação corajosa de Afasi och Filthy ao medo, então meu livro não é para vocês.
É preciso que fique bem claro: aquilo era um rap absolutamente normal, exceto pela letra em sueco.
— Humm — falei. — Então, o Uma aflição imperial. Quando o livro termina, a mãe da Anna está prestes a…
O Van Houten me interrompeu, batendo no copo enquanto falava até a Lidewij enchê-lo de novo.
— Pois bem, Zenão é mais famoso por seu paradoxo da tartaruga. Imaginemos que você esteja participando de uma corrida com uma tartaruga. É dada à tartaruga uma vantagem inicial, em distância, de dez metros. No tempo que você leva para percorrer esses dez metros, a tartaruga talvez se desloque um. E, então, no tempo que você leva para transpor essa distância, a tartaruga vai um pouco mais à frente, e assim por diante. Você é mais rápido que a tartaruga, mas não consegue alcançá-la; só consegue diminuir a distância entre vocês.
‚Mas é óbvio que você acaba simplesmente passando pela tartaruga
sem ponderar sobre a mecânica envolvida, mas a pergunta de como foi capaz de fazer isso acaba sendo incrivelmente complicada e ninguém tinha achado uma resposta para ela de verdade, até que Cantor demonstrou que alguns infinitos são maiores que outros.‛
— Humm — murmurei.
— Imagino que isso responda à sua pergunta — ele disse, confiante, e então deu um gole generoso na bebida.
— Não exatamente — falei. — Nós estávamos nos perguntando se, depois do fim do Uma aflição imperial…
— Eu renego tudo o que há naquele livro pútrido — o Van Houten disse, me interrompendo.
— Não — retruquei.
— O que foi que você disse?
— Não, isso não é aceitável — falei. — Eu entendo que a história acaba no meio da narrativa porque a Anna morre ou fica doente demais para continuar a escrever, mas você falou que ia nos dizer o que acontece com os outros, e é por isso que estamos aqui, e nós, eu preciso que você me diga.
O Van Houten suspirou. Depois de mais um gole, disse:
— Muito bem. Você está curiosa a respeito de quem?
— A mãe da Anna, o Homem das Tulipas Holandês, Sísifo, o hamster, quer dizer, é só… o que acontece com todo mundo.
O Van Houten fechou os olhos, inflou as bochechas ao expirar e então olhou para cima, para as vigas de madeira expostas que se entrecruzavam no teto.
— O hamster — ele disse, depois de um tempo. — O hamster é adotado pela Christine…
Que era uma das amigas da Anna antes de ela ficar doente. Aquilo fazia sentido. A Christine e a Anna brincaram com o Sísifo em algumas cenas.
— Ele é adotado pela Christine e vive alguns anos depois do fim do livro, para então morrer pacificamente durante seu sono de hamster.
Agora, sim, estávamos indo a algum lugar.
— Legal — falei. — Legal. Tá, então agora, o Homem das Tulipas Holandês. Ele é um vigarista? A mãe da Anna se casa com ele?
O Van Houten ainda estava olhando para as vigas no teto. Ele tomou mais um gole. O copo já estava quase vazio de novo.
— Lidewij, eu não consigo fazer isso. Não consigo. Não consigo. — Ele nivelou o olhar com o meu. — Nada acontece com o Homem das Tulipas Holandês. Ele não é um vigarista nem um não-vigarista; ele é Deus. Ele é uma representação metafórica óbvia e inequívoca de Deus, e perguntar o que acontece com ele é o equivalente intelectual a perguntar o que acontece com os olhos desprovidos de corpo do Dr. T. J. Eckleburg em Gatsby. Se ele se casa com a mãe da Anna? Nós estamos falando de um livro, cara criança, não de algum cometimento histórico.
— Tá, mas com certeza você deve ter pensado no que acontece com eles, quer dizer, como personagens, independentemente dos significados metafóricos deles, e tal.
— Eles são ficcionais — ele disse, batendo de novo no copo. — Nada acontece com eles.
— Você falou que ia me dizer — insisti.
Fiz questão de ser assertiva. Eu precisava manter a atenção inebriada dele nas minhas perguntas.
— Talvez, mas eu me encontrava sob a impressão equivocada de que você estava impossibilitada de fazer uma viagem transatlântica. Eu tentei… lhe dar algum consolo, acho, e deveria ter imaginado que a tentativa seria infrutífera. Mas para ser totalmente honesto, essa ideia infantil de que o autor de um livro tem algum insight singular sobre seus personagens… é ridícula. Aquele livro foi composto por rabiscos numa página, minha cara. Os personagens que nele habitam não possuem vida fora desses rabiscos. O que aconteceu com eles? Todos deixaram de existir no momento em que o livro acabou.
— Não — falei. E me levantei do sofá. — Não, eu entendo isso, mas é impossível não imaginar um futuro para eles. Você é a pessoa mais qualificada para imaginar esse futuro. Alguma coisa aconteceu com a mãe da Anna. Ou ela se casou ou não se casou. Ou ela se mudou para a
Holanda com o Homem das Tulipas Holandês ou não se mudou. Ou ela teve mais filhos ou não teve. Eu preciso saber o que acontece com ela.
O Van Houten fez bico.
— Sinto muito não poder satisfazer seus caprichos infantis, mas me recuso a me apiedar de você da forma com a qual está acostumada.
— Eu não quero a sua pena — falei.
— Como toda criança doente — ele retrucou, sem demonstrar qualquer emoção —, você diz que não quer a pena de ninguém, mas a sua existência em si depende dela.
— Peter — a Lidewij falou, mas ele continuou, reclinando-se na cadeira, as palavras saindo ainda mais mastigadas daquela boca bêbada. — Crianças doentes inevitavelmente se tornam prisioneiras: você está fadada a viver o resto dos seus dias como a criança que era ao receber o diagnóstico, a criança que acredita que haja vida depois que um livro acaba. E nós, como adultos, temos pena disso, então pagamos seus tratamentos, suas máquinas de oxigênio. Nós lhes damos comida e água embora seja pouco provável que vocês vivam o suficiente para…
— PETER! — a Lidewij gritou.
— Você é um efeito colateral — o Van Houten continuou — de um processo evolutivo que não dá muita importância a vidas individuais. Você é um experimento malsucedido da mutação.
— EU ME DEMITO! — a Lidewij gritou.
Havia lágrimas nos olhos dela. Mas eu não estava com raiva. Ele havia encontrado um jeito mais doloroso de dizer a verdade, mas, naturalmente, eu já sabia qual era a verdade. Eu tinha passado vários anos olhando do meu leito para o teto da UTI, por isso há tempos já havia achado as maneiras mais dolorosas de imaginar a minha própria doença. Dei um passo na direção dele.
— Ouça aqui, seu idiota — falei —, não há nada que você possa me dizer sobre essa doença que eu já não saiba. Eu só preciso de uma coisa de você antes de sair da sua vida para sempre: O QUE ACONTECE COM A MÃE DA ANNA?
Ele ergueu a papada flácida na minha direção e deu de ombros.
— Não posso dizer o que acontece com ela da mesma forma que não posso dizer que fim levou o narrador de Proust, nem a irmã de Holden Caulfield, nem Huckleberry Finn depois que partiu para os territórios desconhecidos do Oeste.
— BABAQUICE! Isso é uma babaquice. Eu quero saber! Invente alguma coisa!
— Não, e ficarei grato se não proferir palavras de baixo calão na minha casa. Não é um vocabulário apropriado para uma moça.
Eu não estava exatamente com raiva, ainda, apenas bastante concentrada em obter o que me fora prometido. Alguma coisa cresceu dentro de mim, eu me inclinei e dei um soco na mão inchada que segurava o copo de uísque. O que restava da bebida se espalhou pela vastidão do rosto dele, o copo ricocheteou no nariz e depois rodopiou pelo ar, como num balé, aterrissando com um ruído de estilhaços no piso antigo de madeira.
— Lidewij — o Van Houten disse calmamente —, vou tomar um dry martíni, se possível. Com um sussurro de vermute apenas.
— Eu me demiti — ela respondeu após um instante.
— Não seja ridícula. Eu não sabia o que fazer. Ser boazinha não funcionou. Ser grossa não funcionou.
Eu precisava de uma resposta. Tinha vindo de longe e chegado até ali depois de roubar o Desejo do Augustus. Eu precisava saber.
— Alguma vez você já parou para se perguntar — ele disse, as palavras começando a sair meio engroladas — por que se importa tanto com seus questionamentos tolos?
— VOCÊ PROMETEU! — gritei, o ruído do choro impotente do Isaac na noite dos troféus destroçados ecoando na minha cabeça.
O Van Houten não respondeu.
Eu ainda estava de pé na frente dele, esperando que me dissesse alguma coisa, quando senti a mão do Augustus no meu braço. Ele me puxou em direção à porta e eu o segui, enquanto o Van Houten discursava para a Lidewij sobre a ingratidão dos adolescentes contemporâneos e sobre o fim da sociedade cortês, e a Lidewij, de um jeito histérico, gritava
alguma coisa para ele num holandês acelerado.
— Vocês precisam perdoar a minha ex-assistente — ele falou. — O holandês não é bem um idioma, mas uma enfermidade da garganta. O Augustus me tirou do cômodo e me puxou porta afora, ao encontro do fim da manhã de primavera e do confete dos olmos em queda.
* * *
Não existia, para mim, a possibilidade de uma fuga rápida, mas nós descemos os degraus, o Augustus segurando meu carrinho, e começamos a andar de volta para o Filosoof por uma calçada acidentada de paralelepípedos intercalados. Comecei a chorar pela primeira vez desde o episódio do balanço.
— Ei — ele disse, colocando a mão na minha cintura. — Ei. Está tudo bem.
Eu assenti e enxuguei o rosto com as costas da mão.
— Ele não vale nada. Assenti de novo.
— Vou escrever um epílogo para você — o Gus falou. Aquilo me fez chorar ainda mais.
— Vou, sim — ele disse. — Vou mesmo. E vai ser melhor que qualquer coisa que aquele bêbado poderia escrever. O cérebro dele é um queijo suíço. Ele nem se lembra de ter escrito o livro. Eu consigo criar uma história dez vezes melhor que a daquele cara. Vai ter sangue, coragem e sacrifícios. Uma aflição imperial encontra O preço do alvorecer. Você vai amar.
Eu continuei assentindo, simulando um sorriso, e aí ele me abraçou, os braços fortes me puxando para perto do peito musculoso, e eu ensopei a camisa polo dele, mas consegui me recompor o suficiente para poder falar.
— Eu gastei o seu Desejo com aquele idiota — disse, ainda encostada no peito dele.
— Hazel Grace. Não. Posso admitir que você de fato gastou o meu único Desejo, mas não foi com ele. Você gastou meu Desejo com nós dois.
Escutei, vindo de trás, um toc toc toc de saltos altos numa corrida
desabalada. Eu me virei. Era a Lidewij, o delineador escorrendo pelas bochechas, claramente constrangida, tentando nos alcançar.
— Talvez devêssemos ir visitar a Anne Frank Huis — a Lidewij disse.
— Não vou a lugar nenhum com aquele monstro — o Augustus disse.
— Ele não foi convidado — a Lidewij falou.
O Augustus continuou me abraçando de um jeito protetor, a mão na lateral do meu rosto.
— Não acho que… — ele começou, mas eu o interrompi.
— Nós deveríamos ir.
Eu ainda queria respostas do Van Houten. Mas isso não era tudo. Eu só teria mais dois dias em Amsterdã com o Augustus Waters. Não deixaria que um velho patético os estragasse.
* * *
O carro da Lidewij era um desajeitado Fiat cinza com um motor estridente como uma garotinha de quatro anos. Conforme percorríamos as ruas de Amsterdã, ela se desculpava repetida e profusamente.
— Sinto muito. Não tem desculpa. Ele está muito mal — ela disse. — Achei que o encontro o ajudaria, se ele visse que o livro tinha tido alguma influência na vida de vocês, mas… Sinto imensamente. Isso é muito, muito constrangedor.
Nem eu nem o Augustus dissemos nada. Eu estava no banco traseiro, bem atrás dele. Enfiei a mão no espaço entre a lateral do carro e o assento dianteiro, tentando achar sua mão, mas não consegui encontrá-la. A Lidewij prosseguiu:
— Eu continuei trabalhando para ele porque o considero um gênio e porque o salário é muito bom, mas ele se transformou num monstro.
— Imagino que tenha ficado muito rico com a venda do livro — falei, depois de um tempo.
— Ah, não, não. Ele é descendente dos Van Houten — ela falou. — No século dezessete, um ancestral dele descobriu como diluir cacau em pó em água. Muito tempo atrás, alguns dos Van Houten imigraram para os
Estados Unidos e Peter é filho de um deles, mas se mudou para a Holanda depois da publicação do livro. Ele é uma vergonha para uma nobre família.
O motor do carro esgoelou. A Lidewij trocou a marcha e nós passamos por uma ponte sobre o canal.
— Foram as circunstâncias — ela disse. — Foram as circunstâncias que o tornaram uma pessoa tão cruel. Ele não é um homem mau. Mas, hoje, eu não pensei… quando ele falou aquelas coisas horríveis, não pude acreditar. Sinto muito. Sinto muito, muito mesmo.
* * *
Tivemos de estacionar a um quarteirão da casa da Anne Frank, e enquanto a Lidewij ficava na fila para comprar os ingressos para nós, me sentei com as costas apoiadas numa arvorezinha, olhando para as casas flutuantes atracadas no canal Prinsengracht. O Augustus estava em pé à minha frente, movimentando o carrinho do oxigênio em círculos, olhando as rodinhas girarem. Eu queria que ele se sentasse ao meu lado, mas sabia como era difícil, para ele, se sentar, e mais difícil ainda ficar de pé de novo.
— Tudo bem? — ele perguntou, olhando para mim.
Dei de ombros e estiquei o braço para poder colocar a mão na batata da perna dele. Era a panturrilha falsa, mas segurei firme. Ele abaixou a cabeça para me olhar.
— Eu queria… — falei.
— É, eu sei — ele disse. — Eu sei. Aparentemente, o mundo não é uma fábrica de realização de desejos.
Isso me fez rir um tiquinho.
A Lidewij voltou com os ingressos, mas seus lábios finos estavam franzidos de preocupação.
— Não tem elevador — ela disse. — Sinto muito, muito mesmo.
— Está tudo bem — falei.
— Não. Lá dentro há muitas escadas — ela disse. — E elas são íngremes.
— Está tudo bem — repeti. O Augustus começou a dizer alguma coisa, mas eu o interrompi. — Não tem problema. Eu consigo subir.
A visita começou num cômodo que mostrava um vídeo sobre os judeus na Holanda, sobre a invasão nazista e sobre a família Frank. Depois fomos para o andar de cima, adentrando a casa do canal onde funcionara a empresa do Otto Frank. Subir as escadas era um processo lento, tanto para mim quanto para o Augustus, mas eu me sentia forte. Logo estava olhando a famosa estante de livros que camuflara a entrada para o esconderijo da Anne, da família dela e de quatro outras pessoas. A estante estava aberta até a metade, e por atrás havia uma escada mais íngreme ainda, tão estreita que só cabia uma pessoa por degrau.
Havia vários visitantes à nossa volta, e eu não queria atravancar a procissão, mas a Lidewij falou:
— Se todos puderem ter um pouco de paciência, por favor…
E comecei a subir, a Lidewij carregando o carrinho atrás de mim, o Gus na sequência.
Eram quatorze degraus. Eu só pensava nas pessoas que vinham depois de mim, a maioria adultos falando vários idiomas diferentes, e fiquei com vergonha. Sei lá, eu me sentia como um fantasma que tanto traz consolo quanto assombra, mas consegui chegar ao fim da escada, finalmente, num cômodo sinistramente vazio. Eu me apoiei na parede, meu cérebro dizendo a meus pulmões está tudo bem está tudo bem fiquem tranquilos está tudo bem e meus pulmões dizendo ao meu cérebro ai, meu Deus, nós estamos morrendo aqui. Nem vi quando o Augustus chegou, mas ele se aproximou de mim esfregando as costas da mão na testa para secá-la, num movimento de ufa, e disse:
— Você é uma heroína.
Depois de alguns minutos apoiada na parede, fui até o cômodo seguinte, que a Anne havia dividido com o dentista Fritz Pfeffer. Era minúsculo e sem móveis. Não daria para imaginar que alguém tinha vivido ali não fossem as fotos de revistas e jornais que a Anne havia colado na parede e que lá permaneciam.
Outra escada levava ao cômodo no qual a família Van Pel havia
morado, essa mais íngreme que a anterior e com dezoito degraus, basicamente uma escada de mão mais elaborada. Cheguei à base dela, olhei para o alto e achei que não conseguiria subir, mas também sabia que o único caminho para chegar ao fim era subindo.
— Vamos voltar — o Gus disse, atrás de mim.
— Estou bem — respondi baixinho.
Sei que é bobagem, mas eu ficava pensando que devia isso a ela, à Anne Frank, digo, porque ela estava morta e eu, não, porque ela havia ficado em silêncio, mantido as cortinas fechadas e feito tudo certo, e ainda assim, tinha morrido. Então eu deveria subir aqueles degraus e ver o resto do mundo no qual ela vivera durante aqueles anos antes da chegada da Gestapo.
Comecei a subir, transpondo os degraus do mesmo jeito que uma criança pequena faria, devagar a princípio, para conseguir respirar, e mais rápido depois, porque eu sabia que no fim das contas não conseguiria respirar, e queria chegar ao topo antes de perder o fôlego de vez. A escuridão invadia o meu campo de visão enquanto eu escalava os dezoito degraus, íngremes como os diabos. Por fim, alcancei o topo basicamente cega e enjoada, os músculos dos braços e das pernas clamando por oxigênio. Larguei meu corpo no chão, sentando com as costas encostadas numa parede, tossindo sofregamente. Havia uma redoma de vidro vazia e aparafusada na parede acima de mim. Olhei para o alto, através dela, para o teto, tentando não desmaiar.
A Lidewij se agachou ao meu lado e falou:                     
— Você chegou ao último andar, já acabou.
Fiz que sim com a cabeça. Eu tinha uma vaga noção de que havia adultos espalhados pelo ambiente olhando preocupados para mim; da Lidewij falando baixinho numa língua, depois em outra, e então em mais outra para os vários visitantes; do Augustus de pé na minha frente, a mão dele na minha cabeça, acariciando meu cabelo no pedaço em que estava repartido. Depois de um bom tempo, a Lidewij e o Augustus me colocaram de pé, e pude ver o que estava por trás da redoma de vidro: marcas feitas a lápis no papel de parede e que registravam o crescimento
de todas as crianças no anexo secreto durante o período em que viveram ali, centímetro por centímetro, até quando foi interrompido. Saindo dali, deixamos a área de moradia dos Frank, mas ainda estávamos no museu. Um corredor comprido e estreito exibia fotos de cada um dos oito residentes do anexo e descrevia como, onde e quando haviam morrido.
— O único integrante da família dele a sobreviver à guerra — a Lidewij nos disse, se referindo ao pai da Anne, Otto.
Ela sussurrava, como se estivéssemos numa igreja.
— Mas, na verdade, ele não sobreviveu bem a uma guerra — o Augustus falou. — Ele sobreviveu a um genocídio.
— Verdade — a Lidewij concordou. — Não sei como é possível alguém continuar vivendo sem a família. Não sei mesmo.
Enquanto eu lia a respeito de cada um dos sete que morreu, pensei em Otto Frank deixando de ser pai, ficando com um diário, em vez da esposa e das duas filhas. No fim do corredor, um livro enorme, maior que um dicionário, continha os nomes dos 103 mil holandeses mortos no Holocausto. (Apenas 5 mil dos judeus holandeses deportados, explicava uma plaqueta na parede, haviam sobrevivido. Cinco mil Otto Franks.) O livro estava aberto na página em que havia o nome da Anne Frank, mas o que chamou mesmo a minha atenção foi o fato de que logo abaixo do nome dela tinham quatro Aron Franks. Quatro. Quatro Aron Franks sem museus, sem placas comemorativas, sem ninguém para chorar por eles. Em meu íntimo, resolvi que iria me lembrar dos quatro Aron Franks e rezar por eles enquanto vivesse. (Talvez algumas pessoas precisem acreditar num Deus único e onipotente para o qual rezar, mas eu, não.)
Quando chegamos ao fim do cômodo, o Gus parou e perguntou:
— Você está bem?
Assenti com a cabeça.
Ele fez um gesto indicando a foto da Anne.
— A pior parte é que ela quase escapou, sabe? Ela morreu algumas semanas antes da liberação dos campos de concentração.
A Lidewij se afastou alguns passos para assistir a um vídeo, e eu segurei a mão do Augustus enquanto andávamos para o ambiente seguinte.
Era um cômodo de teto triangular com cartas que o Otto Frank havia escrito para algumas pessoas durante sua busca pelas filhas, que durou vários meses. Na parede, no meio do cômodo, um vídeo do Otto estava sendo reproduzido. Ele falava em inglês.
— Sobrou algum nazista que eu possa perseguir e entregar nas mãos da Justiça? — o Augustus perguntou quando nos inclinamos sobre as vitrines da exposição para ler as cartas do Otto e as respostas dilacerantes de que não, ninguém tinha visto as filhas dele depois da liberação.
— Acho que estão todos mortos. Mas não é como se os nazistas tivessem o monopólio do mal.
— Verdade — ele disse. — Eis o que deveríamos fazer, Hazel Grace: nós deveríamos nos unir e virar uma dupla de justiceiros portadores de deficiências botando a boca no trombone pelo mundo, endireitando o que está errado, defendendo os fracos, protegendo quem se sente ameaçado.
Embora aquela fosse a ‚viagem‛ do Gus, e não a minha, eu entrei na dele. O Gus já havia entrado na minha, afinal.
— Nosso destemor será nossa arma secreta — falei.
— As lendas das nossas proezas sobreviverão enquanto existir a voz humana — ele disse.
— E, mesmo depois disso, quando os robôs relembrarem os absurdos humanos de sacrifício e compaixão, eles se lembrarão de nós.
— Eles rirão roboticamente da nossa loucura destemida — ele disse. — Mas algo em seus corações de ferro robotizados vai desejar ter vivido e morrido como nós: a serviço do heroísmo.
— Augustus Waters — falei, olhando para ele, pensando que talvez não fosse certo beijar alguém dentro da casa da Anne Frank, mas então imaginando que a Anne Frank, no fim das contas, devia ter beijado alguém na casa da Anne Frank, e que ela provavelmente gostaria de sua casa ter se tornado um lugar no qual os jovens e irremediavelmente imperfeitos se entregam ao amor.
‚Devo dizer‛, o Otto Frank falou no vídeo em seu inglês com sotaque, ‚que fiquei surpreso com os pensamentos profundos que a Anne tinha.‛
E então, de repente, estávamos nos beijando. Minha mão largou o
carrinho do oxigênio, segurou o pescoço do Gus, enquanto ele me puxou para cima pela cintura, me deixando na ponta dos pés. Quando os lábios semiabertos dele encontraram os meus, comecei a sentir uma falta de ar totalmente inédita e fascinante. O espaço à nossa volta evaporou, e por um estranho momento me senti bem no meu corpo; essa coisa estragada pelo câncer que eu tinha passado vários anos arrastando de um lado para outro parecia, de repente, valer a pena, os tubos no tórax e os PICCs e a incessante traição corporal dos tumores.
‚A Anne que eu conhecia como filha era bastante diferente. Ela nunca demonstrou esse tipo de sentimento interior‛, o Otto Frank continuou.
O beijo durou uma eternidade enquanto o Sr. Frank falava atrás de mim.
‚E a minha conclusão, na medida em que eu mantinha boas relações com a Anne, é que a maioria dos pais não conhece de verdade seus filhos.‛
Eu me dei conta de que meus olhos estavam fechados e os abri. O Augustus me encarava, seus olhos azuis mais próximos que nunca, e atrás dele um grupo de pessoas tinha meio que se organizado em três camadas de círculos à nossa volta. Eles estavam com raiva, pensei. Horrorizados. Esses adolescentes, com seus hormônios, se agarrando debaixo de um vídeo reproduzindo a voz exaurida de um ex-pai.
Eu me afastei do Augustus, e ele tascou um beijo na minha testa enquanto eu olhava fixamente para meus Chuck Taylors. E foi então que começaram a bater palmas. Todas as pessoas, todos aqueles adultos, simplesmente começaram a bater palmas, e um deles até gritou: ‚Bravo!‛, com um sotaque europeu. O Augustus, sorridente, fez uma mesura. Rindo, fiz uma ligeira reverência, o que provocou uma nova rodada de aplausos.
Descemos as escadas depois de deixar todos os adultos passarem, e logo antes de chegarmos ao café (onde, por sorte, um elevador nos levou até o térreo e à lojinha de suvenires) vimos algumas páginas do diário da Anne, além de seu livro de citações ainda inédito, aberto numa página de frases de Shakespeare. Quem é tão firme que não possa ser seduzido?, ela escrevera.
* * *
A Lidewij nos deu uma carona de volta ao Filosoof. Do lado de fora do hotel estava chuviscando, e o Augustus e eu ficamos parados na calçada de paralelepípedos, nos ensopando aos poucos.
Augustus: ‚Você deve estar precisando descansar.‛
Eu: ‚Estou bem.‛
Augustus: ‚Tá.‛ (Pausa.) ‚Em que você está pensando?‛
Eu: ‚Em você.‛
Augustus: ‚O que tem eu?‛
Eu: ‚Não sei mesmo qual preferir, / A beleza das inflexões / Ou a das alusões, / O pássaro-preto assobiando / Ou só depois.‛
Augustus: ‚Cara, você é sexy.‛
Eu: ‚Nós poderíamos ir para o seu quarto.‛
Augustus: ‚Já ouvi ideias piores.‛
* * *
Nos esprememos no elevador minúsculo. Todas as superfícies, inclusive o piso, eram cobertas de espelhos. Tivemos de puxar a porta para fechar o elevador, e então aquela coisa velha foi rangendo devagar até o segundo andar. Eu estava cansada, suada e com medo de a minha aparência e o meu cheiro estarem horríveis, mas mesmo assim o beijei dentro daquele cubículo. Aí ele se afastou um pouco, apontou para o espelho e disse:
— Veja: infinitas Hazels.
— Alguns infinitos são maiores que outros — falei pausadamente, imitando o Van Houten.
— Que palhaço! — o Augustus disse, e demorou todo esse tempo, e mais ainda, para chegarmos ao segundo andar.
Por fim, o elevador parou num tranco. O Augustus empurrou a porta espelhada para abri-la. Quando estava metade aberta, ele estremeceu de dor e perdeu a pegada por um segundo.
— Você está bem? — perguntei.
Após um instante, ele respondeu:
— Estou, estou. É só a porta, que é meio pesada, acho.
Ele a empurrou de novo e conseguiu abri-la, me deixando sair primeiro, claro, mas aí eu não soube que direção seguir pelo corredor e fiquei simplesmente ali, do lado de fora, e ele também, seu rosto ainda transfigurado pela dor.
— Está tudo bem com você? — perguntei mais uma vez.
— Só estou fora de forma, Hazel Grace. Está tudo ótimo.
Nós estávamos ali parados e ele não tomava a iniciativa de ir para o quarto nem nada, e eu não sabia onde o quarto ficava, e enquanto durava o impasse me convenci de que ele estava tentando descobrir uma forma de não ficar comigo e de que, para início de conversa, eu nunca deveria ter dado aquela ideia, que a iniciativa não deveria ter sido minha, daí a repugnância dele, que só ficava me olhando, de pé, sem nem piscar, tentando pensar num jeito de se desvencilhar educadamente da situação. E aí, depois do que pareceu ser uma eternidade, ele falou:
— Fica acima do meu joelho, e vai afunilando um pouco, e depois é só pele. Tem uma cicatriz horrenda, mas ela parece…
— O quê? — perguntei.
— A minha perna — ele respondeu. — Só para você se preparar psicologicamente no caso de, quer dizer, no caso de você ver, ou coisa ass…
— Ah, deixe de bobagem — falei, e andei os dois passos necessários para chegar até ele.
Dei um beijo no Augustus, intenso, imprensando seu corpo contra a parede, e continuei com o beijo enquanto ele vasculhava o bolso à procura da chave do quarto.
* * *
Subimos lentamente na cama, minha liberdade um pouco limitada pelo oxigênio, mas mesmo assim consegui ficar por cima dele e tirar sua camisa. Senti o gosto do suor na pele abaixo da clavícula enquanto
sussurrava, a boca encostada nele:
— Augustus Waters, eu te amo.
Seu corpo relaxou debaixo do meu quando ele me ouviu dizer aquilo. Ele esticou o braço e tentou tirar a minha camiseta, mas ela acabou enrolando no tubo. Eu ri.
* * *
— Como é que você faz isso todos os dias? — ele perguntou enquanto eu desenrolava as coisas.
Tolamente, me dei conta de que minha calcinha rosa não combinava com meu sutiã roxo, como se os garotos reparassem nisso. Eu me enfiei debaixo das cobertas e tirei a calça jeans e as meias, e então fiquei observando a dança do edredom enquanto, debaixo dele, o Augustus tirava primeiro a calça jeans, depois a perna.
* * *
Estávamos deitados de costas, lado a lado, escondidos sob as cobertas. Depois de um segundo, tateei à procura da coxa dele e deixei minha mão seguir para baixo até o cotoco, a pele com a cicatriz grossa. Segurei o cotoco por um tempo. Ele se encolheu.
— Dói? — perguntei.
— Não — ele respondeu.
Ele se virou de lado e me beijou.
— Você é muito sexy — falei, minha mão ainda na perna.
— Estou começando a achar que você tem um fetiche por amputados — ele retrucou, ainda me beijando.
Eu ri.
— Eu tenho um fetiche por Augustus Waters — expliquei.
* * *
A coisa toda foi exatamente o oposto do que eu tinha imaginado: devagar, paciente, silenciosa e nem especialmente dolorosa nem especialmente extasiante. Houve alguns problemas relacionados à camisinha, os quais não perdi muito tempo observando. Nenhuma cabeceira foi quebrada. Nada de gritos. Para ser sincera, aquela foi provavelmente a maior quantidade de tempo que passamos juntos sem falar nada. Só uma coisa seguiu o protocolo: depois que tudo terminou, enquanto eu descansava o rosto no peito dele, ouvindo seu coração bater, o Augustus disse:
— Hazel Grace, não consigo mais manter os olhos abertos. Literalmente.
— Utilização incorreta da literalidade — falei.
— Não — ele disse. — Tão. Cansado.
E virou o rosto para o outro lado, minha orelha apertada contra o peito dele, ouvindo o ruído dos pulmões enquanto entravam no ritmo do sono. Depois de um tempo me levantei, me vesti, achei um papel de carta do Hotel Filosoof e escrevi um bilhete de amor para ele:
Querido Augustus,
Jovens de dezesseis anos com uma perna só
Da sua,
Hazel
Grace
virgens
CAPÍTULO TREZE
a manhã seguinte, nosso último dia inteiro em Amsterdã, mamãe, Augustus e eu andamos o meio quarteirão entre o hotel e o Vondelpark, onde descobrimos um café à sombra do Museu do Cinema Holandês. Tomando lattes — que, nos disse o garçom, eram chamados pelos holandeses de ‚café estragado‛ porque tinham mais leite que café —, nos sentamos à sombra rendada de uma castanheira enorme e contamos à mamãe como foi nosso encontro com o grande Peter Van Houten. Demos um tom engraçado à história. Até onde eu sei, você pode escolher a forma de contar uma história triste nesse mundo, e nós fomos pela opção divertida: o Augustus, afundado na cadeira do café, fingiu ser um Van Houten de língua presa e fala engrolada que nem sequer conseguia levantar da poltrona; eu fiquei de pé para representar a minha versão arrogante e machona, gritando:
— Levante-se, velho gordo e feio!
— Você chamou o Van Houten de feio? — o Augustus perguntou.
— Continue, Gus — falei para ele.
— Nau sou feiu. Você é que é feia, garota do nariz entubado.
— Você é um covarde! — gritei, e o Augustus caiu na gargalhada, saindo do personagem.
Eu me sentei. Contamos para a mamãe da ida à casa da Anne Frank, deixando de fora a parte do beijo.
— Vocês voltaram à casa do Van Houten depois? — a mamãe perguntou.
O Augustus não me deu nem tempo de ficar vermelha.
— Não, nós só ficamos jogando conversa fora num café. E a Hazel desenhou um diagrama de Venn muito bem-humorado para mim.
Ele me olhou. Cara, como ele era sexy.
N
— Parece que foi legal — ela disse. — Bem, vou andar por aí agora. E dar um tempo para vocês conversarem. — Ela olhou para o Gus de um jeito meio incisivo. — Então depois, talvez, nós possamos fazer um passeio de barco pelo canal.
— Ahn, o.k.? — falei.
A mamãe deixou uma nota de cinco euros debaixo do pires, deu um beijo na minha cabeça e sussurrou:
— Eu te amo amo amo.
O que eram dois amos a mais que o normal.
O Gus apontou para as sombras dos galhos se entrecruzando e depois se separando no cimento.
— Lindo, né?
— É — respondi.
— Uma metáfora das boas — ele balbuciou.
— É mesmo? — perguntei.
— A imagem em negativo de coisas sendo unidas pelo vento e depois indo pelos ares — ele falou.
Diante de nós, centenas de pessoas passavam, correndo, andando de bicicleta e de patins. Amsterdã era uma cidade projetada para movimentação e atividades, uma cidade que preferia não viajar de carro, por isso me senti inevitavelmente excluída. Mas, cara, como era linda, o riacho esculpindo um caminho em volta de uma árvore imensa, uma garça-real imóvel à beira d’água, tentando encontrar algo para comer no meio daqueles milhões de pétalas de olmo flutuando.
Mas o Augustus não reparou naquilo. Ele estava muito ocupado observando as sombras se moverem. Por fim, falou:
— Eu poderia ficar o dia todo aqui olhando isso, mas precisamos voltar para o hotel.
Será que teremos tempo? — perguntei.
Ele abriu um sorriso triste.
— Quem me dera — respondeu.
— Qual é o problema? — perguntei.
Ele fez um movimento com a cabeça em direção ao hotel.
* * *
Andamos em silêncio, o Augustus meio passo à minha frente. Meu medo era tanto que eu não conseguia nem perguntar se tinha motivo para ficar com medo. A
Aí existe esse troço chamado Hierarquia de Necessidades de Maslow. Basicamente, um cara chamado Abraham Maslow ficou famoso por sua teoria, que defende que certas necessidades devem ser satisfeitas antes mesmo que se possa ter outros tipos de necessidades. A teoria é representada mais ou menos assim:
HIERARQUIA DE NECESSIDADES DE MASLOW
Logo que suas necessidades de comida e água são atendidas, você passa ao conjunto de necessidades seguinte, que tem a ver com segurança, e então vai para o próximo, e depois para o outro, mas o importante é que, de acordo com Maslow, até que suas necessidades fisiológicas sejam satisfeitas, você não tem nem mesmo como chegar a se preocupar com a necessidade de segurança ou de relacionamentos, quanto mais com a ‚autorrealização‛, que é quando você começa a, tipo, fazer arte e pensar nos princípios morais, na física quântica e em coisas assim.
Segundo Maslow, eu estava empacada no segundo nível da pirâmide, incapaz de sentir segurança na minha saúde e, portanto, incapaz de tentar ir atrás de amor, de respeito, de arte e de mais nada, o que, obviamente, era uma bobagem sem tamanho: o desejo de fazer arte ou de filosofar não
desaparece quando alguém está doente. Esses desejos só ficam transfigurados pela doença.
A pirâmide de Maslow parecia sugerir que eu era menos humana que os outros, e a maioria das pessoas parecia concordar com ele. Mas não o Augustus. Sempre achei que ele poderia me amar porque já esteve doente um dia. Só então me ocorreu que talvez ele ainda estivesse.
* * *
Chegamos ao meu quarto, o Kierkegaard. Eu me sentei na cama esperando que o Gus fosse se juntar a mim, mas ele afundou na cadeira Paisley empoeirada. Aquela cadeira. Quantos anos tinha aquilo? Uns cinquenta?
Senti o nó na garganta apertando enquanto o via tirar um cigarro do maço e colocá-lo nos lábios. Ele se recostou e suspirou.
— Um pouco antes de você ir parar na UTI, comecei a sentir uma dor no quadril.
— Não — falei.
O pânico me invadiu e me arrastou para as profundezas.
Ele fez que sim com a cabeça.
— Então fui ao hospital fazer uma tomografia.
Ele parou. Tirou o cigarro da boca e trincou os dentes.
Passei a maior parte da minha vida tentando não chorar na frente das pessoas que me amavam, por isso sabia o que o Augustus estava fazendo. Você trinca os dentes. Você olha para cima. Você diz a si mesmo que se eles o virem chorando, aquilo vai magoá-los, e você não vai ser nada mais que Uma Tristeza na vida deles. Você não deve se transformar numa mera tristeza, então não vai chorar, e você diz tudo isso para si mesmo enquanto olha para o teto. Aí engole em seco, mesmo que sua garganta não queira, olha para a pessoa que ama você e sorri.
Ele abriu o sorriso torto e disse:
— Eu acendi como uma árvore de Natal, Hazel Grace. Dentro do tórax, o lado esquerdo do meu quadril, meu fígado, tudo.
Tudo. Aquela palavra ficou suspensa no ar por um tempo. Ambos sabíamos o que significava. Eu me levantei, arrastando meu corpo e o carrinho pelo tapete que era mais velho do que o Augustus jamais seria, me ajoelhei nos pés da cadeira, coloquei minha cabeça no colo dele e abracei sua cintura.
Ele começou a passar a mão no meu cabelo.
— Sinto muito — falei.
— Foi mal eu não ter dito nada para você — ele disse, o tom de voz manso. — Sua mãe deve saber. O jeito como olhou para mim. Minha mãe deve ter contado para ela, ou algo assim. Eu deveria ter contado para você. Foi burrice minha. Egoísmo.
É claro que eu sabia por que o Gus não tinha dito nada: pelo mesmo motivo que não deixei que ele me visse na UTI. Eu não tinha o direito de ficar chateada com ele nem por um instante, e só agora que eu amava uma granada foi que entendi a bobagem que é tentar salvar os outros da minha própria explosão iminente: eu não podia deixar de amar o Augustus Waters. E não queria fazer isso.
— Não é justo — falei. — É tudo tão injusto…
— O mundo não é uma fábrica de realização de desejos — ele retrucou, e então perdeu o controle, só por alguns instantes, seu choro e seus soluços ruídos impotentes como o estrondo de um trovão sem raio, a ferocidade tremenda que os amadores no quesito sofrimento podem tomar erradamente por fraqueza.
Aí ele me puxou mais para perto e, com o rosto a poucos centímetros do meu, decidiu:
— Eu vou lutar contra o câncer. Vou lutar contra o câncer por você. Não se preocupe comigo, Hazel Grace. Estou bem. Vou achar um jeito de continuar por aqui e encher o seu saco por um bom tempo.
Comecei a chorar. Mas mesmo naquele momento ele parecia forte, me dando um abraço apertado para que eu pudesse ver os músculos vigorosos de seus braços em torno de mim quando disse:
— Sinto muito. Você vai ficar bem. Tudo vai ficar bem. Prometo. — Ele abriu aquele sorriso torto, me deu um beijo na testa, e senti seu tórax
poderoso esvaziar só um tiquinho. — Acho que eu tinha uma hamartia, no fim das contas.
* * *
Depois de um tempo eu o puxei até a cama e nós ficamos deitados lá, juntinhos, enquanto ele me contava que havia começado um tratamento paliativo com quimioterapia, mas que tinha desistido de tudo para ir a Amsterdã, mesmo isso tendo deixado seus pais furiosos. Os dois continuaram tentando impedi-lo de viajar até aquela manhã, quando o ouvi gritando que seu corpo lhe pertencia.
— Nós poderíamos ter adiado a viagem — falei.
— Não, não poderíamos — ele retrucou. — De qualquer forma, não estava dando resultado. Dava para sentir que não estava dando certo, sabe? Assenti com a cabeça.
— É uma perda de tempo, a coisa toda — falei.
— Eles vão tentar algo novo quando eu voltar para casa. Eles sempre têm uma ideia nova.
— É — falei, eu mesma já tendo sido a almofada de alfinetes experimental.
— Eu meio que enganei você, levando você a acreditar que estava se apaixonando por uma pessoa saudável — ele falou.
Dei de ombros.
— Eu teria feito o mesmo.
— Não, não teria, mas não dá para todo mundo ser tão incrível como você.
Ele me beijou, e então fez uma careta.
— Dói? — perguntei.
— Não. É só que. — Ele ficou olhando para o teto por um bom tempo antes de dizer: — Eu gosto deste mundo. Gosto de beber champanhe. Gosto de não fumar. Gosto do som de holandeses falando holandês. E agora… Não vou ter nem a chance da batalha. Não vou ter nem a chance da luta.
— Você pode batalhar contra o câncer — falei. — Essa é a sua batalha. E você vai continuar lutando — disse para ele. Odiava quando as pessoas tentavam me encorajar para me preparar para a batalha, mas fiz isso com ele mesmo assim. — Você vai… você vai… viver o melhor da sua vida hoje. Essa é a sua guerra agora.
Eu me odiei por aquele sentimento brega, mas o que mais eu tinha?
— Grande guerra — ele disse com desdém. — Estou em guerra contra o quê? O meu câncer. E o que é o meu câncer? Meu câncer sou eu. Os tumores são feitos de mim. Eles são feitos de mim tanto quanto meu cérebro e meu coração são feitos de mim. É uma guerra civil, Hazel Grace, a gente já sabe quem vai vencer.
— Gus.                                                                              
Não havia mais nada que eu pudesse dizer. Ele era inteligente demais para o tipo de consolo que eu poderia oferecer.
— Está tudo bem. — Mas não estava, e depois de alguns instantes ele disse: — Se você for ao Rijksmuseum, o que eu realmente gostaria de fazer, mas, a quem estamos querendo enganar? Nenhum de nós consegue passar horas andando num museu. Bem, de qualquer forma, dei uma olhada na coleção de pinturas deles pela Internet, antes de virmos. Se você fosse lá, e espero que um dia consiga ir, veria várias pinturas de pessoas mortas. Veria Jesus na cruz, um cara sendo esfaqueado no pescoço, pessoas morrendo no mar, outras numa batalha, e um desfile de mártires. Mas nem. Uma. Criança. Com. Câncer. Sequer. Ninguém batendo as botas por causa da praga, nem da varíola, nem da febre amarela, nem nada, porque não existe glória na doença. Não há propósito nela. Não há honra em se morrer de.
Abraham Maslow, apresento a você o Augustus Waters, cuja curiosidade existencial superou a de seus irmãos bem-alimentados, bem-amados e saudáveis. Enquanto a massa de homens seguia em frente levando vidas totalmente inescrutáveis de consumo descabido, o Augustus Waters examinava a coleção de pinturas do Rijksmuseum a distância.
— O que foi? — o Augustus perguntou após um tempo.
— Nada — respondi. — Só… — Não pude completar a frase. Não
sabia como. — Só gosto muito demais da conta de você.
Ele deu um sorriso torto, o nariz a centímetros do meu.
— A recíproca é verdadeira. Será que daria para você esquecer isso tudo e me tratar como se eu não estivesse morrendo?
— Não acho que você esteja morrendo — falei. — Só acho que você recebeu uma pitada de câncer.
Ele sorriu. Humor negro.
— Estou numa montanha-russa que só vai para cima — falou.
— E é meu privilégio e minha responsabilidade seguir nessa montanha-russa até o topo com você — retruquei.
— Seria totalmente absurdo tentar fazer amor agora?
— Tentativa não há — falei. — Fazer é que há.
CAPÍTULO QUATORZE
o voo de volta para casa, vinte mil pés acima de nuvens que pairavam a dez mil pés do chão, o Gus disse:
— Antigamente eu imaginava que seria divertido morar numa nuvem.
— É — falei. — Como se fosse, tipo, um pula-pula inflável, só que para sempre.
— Mas, então, na aula de ciências do ensino fundamental, o Sr. Martinez perguntou quem de nós já havia fantasiado em morar nas nuvens, e todo mundo levantou a mão. Aí o Sr. Martinez nos contou que a velocidade do vento nas nuvens é de duzentos e quarenta quilômetros por hora, que a temperatura gira em torno de trinta graus negativos, que nelas não há oxigênio e que todos morreríamos em poucos segundos.
— Ele parece um cara legal.
— Só digo uma coisa: ele era especialista em arruinar sonhos, Hazel Grace. Você acha que os vulcões são incríveis? Diga isso aos dez mil cadáveres berrando em Pompeia. Lá no fundo você ainda acredita que haja uma aura de mágica neste mundo? São apenas moléculas desalmadas colidindo umas com as outras aleatoriamente. Você se preocupa com quem vai cuidar de você se seus pais morrerem? Pois deveria mesmo, porque eles virarão comida de verme na completude do tempo.
— A ignorância é uma bênção — falei.
Uma comissária de bordo cruzava o corredor empurrando o carrinho de bebidas, sussurrando:
— Bebida? Bebida? Bebida? Bebida?
O Gus inclinou o corpo por cima de mim, levantando a mão.
— Será que você poderia nos servir champanhe?
— Vocês têm vinte e um anos? — ela perguntou, meio desconfiada.
N
Ajeitei o cateter no nariz de um jeito que ela visse. A comissária sorriu, e então olhou para a minha mãe, que dormia. — Ela não vai achar ruim?
— Nem um pouquinho — respondi.
Então ela serviu um pouco de champanhe em dois copos de plástico. Privilégios do Câncer.
O Gus e eu fizemos um brinde.
— A você — ele disse.
— A você — falei, encostando meu copo no dele.
Tomamos um gole. Estrelas não tão perceptíveis quando comparadas às que tomamos no Oranjee, mas ainda assim boas o bastante para serem apreciadas.
— Sabe — o Gus disse para mim —, tudo o que o Van Houten falou era verdade.
— Talvez, mas ele não precisava ter sido um idiota tão completo. Não acredito que ele imaginou um futuro para Sísifo, o hamster, mas não para a mãe da Anna.
O Augustus deu de ombros. E pareceu sair do ar de repente.
— Você está bem? — perguntei.
Ele balançou a cabeça num movimento microscópico.
— Dói — ele disse.
— O peito?
Ele assentiu. Punhos cerrados. Um tempo depois, ele descreveu aquela dor como sendo a de um homem de uma perna só, calçado com um salto agulha, de pé no meio do tórax dele. Retornei minha bandeja à posição vertical e me inclinei para a frente a fim de procurar analgésicos na mochila dele. Ele tomou um comprimido com champanhe.
— Tudo bem? — perguntei de novo.
O Gus ficou só sentado ali, abrindo e fechando o punho, esperando que o analgésico fizesse efeito, o remédio que não acabava bem com a dor, apenas distanciava o Gus dela (e de mim).
— Parecia que era pessoal — o Gus disse, baixinho. — Como se ele estivesse com raiva de nós dois por algum motivo. O Van Houten, digo.
Ele bebeu o resto do champanhe de uma vez só e logo pegou no sono.
* * *
Meu pai estava esperando por nós na área de desembarque, em meio aos motoristas de limusine de terno que seguravam placas com os sobrenomes de seus passageiros: JOHNSON, BARRINGTON, CARMICHAEL. Papai tinha a própria placa. MINHA FAMÍLIA LINDA, dizia, e logo abaixo: (E GUS).
Abracei o papai e ele começou a chorar (claro). Na volta de carro para casa, o Gus e eu lhe contamos as histórias de Amsterdã, mas só depois que eu já estava em casa, conectada ao Felipe, assistindo aos bons e velhos programas de televisão norte-americanos com o papai e comendo pizza norte-americana com guardanapos no colo, foi que contei a ele do Gus.
— Gus teve uma recorrência — falei.
— Eu sei — ele disse.
Chegou mais para perto de mim e acrescentou:
— A mãe dele nos contou antes da viagem. Sinto muito por ele ter escondido isso de você. Eu… Eu sinto muito, Hazel. — E não disse mais nada por um bom tempo.
O programa que estávamos vendo era sobre pessoas que tentam escolher que casa vão comprar.
— Eu li o Uma aflição imperial enquanto vocês estavam viajando — o papai disse.
Virei a cabeça na direção dele.
— Ah, que legal. E o que achou?
— Achei bom. Um pouco demais para a minha cabeça. Eu me formei em bioquímica, se você bem se lembra, não em literatura. Realmente acho que a história deveria ter tido um fim.
— É — falei. — Essa é uma reclamação recorrente.
— Além do mais, o livro era um pouco pessimista — ele disse. — Um pouco derrotista.
— Se com derrotista você quer dizer honesto, então concordo com você.
— Não acho que o derrotismo tenha a ver com honestidade — o papai
retrucou. — Eu me recuso a aceitar isso.
— Então tudo acontece por uma razão e nós todos vamos viver nas nuvens e tocar harpa e morar em mansões celestiais?
Ele sorriu. E me envolveu com seu braço comprido e me puxou mais para perto, dando um beijo na lateral da minha cabeça.
— Não sei no que eu acredito, Hazel. Eu achava que ser adulto significava saber em que você acredita, mas não tem sido bem assim para mim.
— É — falei. — Tudo bem.
Ele me disse de novo que sentia muito pelo Gus, e nós continuamos a ver o programa. As pessoas escolheram uma casa, o papai com o braço ainda em volta de mim, e eu meio que comecei a pegar no sono, mas não queria dormir ainda. Então, papai disse:
— Você sabe em que eu acredito? Eu me lembro de quando estava na faculdade, durante uma aula de matemática, uma aula de matemática realmente fantástica dada por uma professora idosa e baixinha. Ela falava das transformações rápidas de Fourier, mas parou no meio de uma frase e disse: ‚Às vezes parece que o universo quer ser notado.‛ É nisso que eu acredito. Acredito que o universo quer ser notado. Acho que o universo é, questionavelmente, tendencioso para a consciência, que premia a inteligência em parte porque gosta que sua elegância seja observada. E quem sou eu, vivendo no meio da história, para dizer ao universo que ele, ou a minha observação dele, é temporária?
— Você é razoavelmente inteligente — falei, depois de um tempo.
— Você é razoavelmente boa com elogios — ele retrucou.
* * *
No dia seguinte à tarde, fui de carro até a casa do Gus e lanchei sanduíches de manteiga de amendoim e geleia com os pais dele. Contei as histórias de Amsterdã enquanto o Gus cochilava no sofá da sala de estar, onde tínhamos assistido ao V de Vingança. Dava para vê-lo da cozinha: deitado de costas, o rosto virado para o outro lado, um PICC já em ação.
Eles estavam atacando o câncer com um novo coquetel: duas substâncias quimioterápicas e um receptor de proteína que, eles esperavam, desligaria o oncogene no câncer do Gus. Ele teve sorte de conseguir participar do experimento, me disseram. Sorte. Eu já conhecia uma daquelas substâncias. Só de ouvir o nome dela fiquei com vontade de vomitar.
Depois de um tempo, a mãe do Isaac o levou para visitar o Gus.
— Oi, Isaac, sou eu, a Hazel, do Grupo de Apoio, e não a sua ex-namorada do mal.
A mãe do Isaac o guiou até mim, eu levantei da cadeira da mesa de jantar e o abracei, o corpo dele levando alguns instantes para me encontrar antes de me abraçar de verdade, um abraço forte.
— Como foi lá em Amsterdã? — ele perguntou.
— Incrível — respondi.
— Waters — ele falou. — Cadê você, irmão?
— Ele está tirando um cochilo — eu disse, e minha garganta travou.
O Isaac balançou a cabeça, o restante de nós permaneceu sem silêncio. — Que droga! — o Isaac falou depois de um segundo.
A mãe dele o levou até uma cadeira que ela havia puxado. Ele se sentou.
— Eu ainda consigo mandar no seu traseiro cego no Counterinsurgence — o Augustus disse sem se virar para nós.
O remédio deixava a fala dele um pouco lenta, mas aquela velocidade equivalia à de uma pessoa normal.
— Eu tenho quase certeza de que todos os traseiros são cegos — o Isaac respondeu, estendendo a mão no ar sem rumo, procurando a mãe.
Ela o segurou, ajudou-o a se levantar e eles andaram juntos até o sofá, onde o Gus e o Isaac deram um abraço meio sem jeito.
— Como está se sentindo? — o Isaac perguntou.
— Tudo tem gosto de moeda. Fora isso, estou numa montanha-russa que só vai para cima, garoto — o Gus respondeu. O Isaac riu. — Como estão seus olhos?
— Ah, excelentes — ele disse. — Quer dizer, o fato de não estarem no meu rosto é o único problema.
— Maravilha — o Gus falou. — Não é que eu queira ser melhor que você nem nada, mas meu corpo é feito de câncer.
— Pois é, ouvi dizer — o Isaac falou, tentando não deixar que aquilo o afetasse.
Tateou à procura da mão do Gus mas só achou a coxa dele.
— Estou tomado — disse o Gus.
* * *
A mãe do Isaac pegou duas cadeiras, e o Isaac e eu nos sentamos perto do Gus. Peguei a mão do Gus e fiquei fazendo carinho no espaço entre o polegar e o indicador, em círculos.
Os adultos foram todos para o porão a fim de se lamentar ou coisa do gênero, deixando nós três sozinhos na sala de estar. Depois de um tempo, o Augustus virou a cabeça para nós, o despertar lento.
— Como está a Monica? — ele perguntou.
— Não deu nenhuma notícia — o Isaac respondeu. — Nenhum cartão; nenhum e-mail. Eu tenho uma máquina que lê meus e-mails para mim. É muito maneira. Dá para alterar o tipo de voz, de homem ou de mulher, além do sotaque, e tal.
— Então eu posso, tipo, mandar um texto pornô e você consegue fazer um velho alemão ler?
— Exatamente — o Isaac disse. — O único problema é que a mamãe ainda precisa me ajudar com a máquina, então talvez seja melhor segurar a onda da pornografia alemã por uma ou duas semanas.
— Ela nem mandou, tipo, um torpedo para perguntar como está indo? — questionei.
Aquilo me pareceu uma injustiça sem precedentes.
— Silêncio de rádio total — o Isaac disse.
— Ridículo — falei.
— Já parei de pensar nisso. Não tenho tempo para namoradas. Arranjei um emprego de expediente integral Aprendendo a Ser Cego.
O Gus virou de novo a cabeça para o outro lado e ficou olhando, pela
janela, para o terraço no quintal da casa. Seus olhos se fecharam. O Isaac perguntou como eu estava, respondi que bem, e ele me contou que havia uma garota nova no Grupo de Apoio com uma voz bastante sensual e que ele precisava que eu fosse lá para confirmar se ela era mesmo sensual. Aí, do nada, o Augustus disse:
— Você não pode simplesmente não falar com seu ex-namorado depois de os olhos dele terem sido arrancados do raio do rosto dele.
— Apenas um dos…. — o Isaac começou.
— Hazel Grace, você tem quatro dólares? — o Gus perguntou.
— Humm — falei. — Tenho.
— Excelente. Você vai encontrar minha perna debaixo da mesa de café — ele falou.
O Gus empurrou o corpo para cima, se sentando, e chegou para a beirada do sofá. Entreguei para ele a prótese; ele a acoplou quase em câmera lenta.
Ajudei o Gus a ficar de pé e ofereci o braço ao Isaac, e fui guiando ele na transposição dos móveis que, de repente, pareciam estar todos no meio do caminho — e percebi que, pela primeira vez em vários anos, eu era a pessoa mais saudável no ambiente.
Eu dirigi. O Augustus foi no banco do carona. O Isaac, no banco de trás. Paramos numa loja de conveniência onde, seguindo instruções expressas do Augustus, comprei uma dúzia de ovos enquanto ele e o Isaac esperavam no carro. E então o Isaac nos guiou, usando a memória, até a casa da Monica, uma casa de dois andares excessivamente estéril perto do Centro da Comunidade Judaica. O Pontiac Firebird verde-esmeralda da década de 1990, com suas rodas largas, estava parado na entrada de veículos.
— O carro dela está aí? — o Isaac perguntou quando sentiu que eu estava freando para parar.
— Ah, se está — o Augustus disse. — Você sabe com o que ele se parece, Isaac? Ele se parece com todas as esperanças que fomos tolos em alimentar.
— Então ela está lá dentro?
O Gus virou a cabeça lentamente a fim de olhar para o Isaac.
— Quem se importa com onde ela está? Isso não tem nada a ver com ela. Isso tem a ver com você.
O Gus segurou a caixa de ovos no colo, abriu a porta e puxou as pernas para fora, para a rua. Ele abriu a porta para o Isaac, e eu fiquei olhando pelo retrovisor enquanto o Gus o ajudava a sair do carro, os dois se apoiando um no outro na linha do ombro, o resto do corpo mais afastado, como se fossem duas mãos em oração sem que as palmas se encostassem.
Abaixei o vidro e fiquei assistindo a tudo do carro, porque vandalismo me deixava nervosa. Eles deram alguns passos em direção ao carro da Monica, e então o Gus abriu a caixa de ovos e entregou um para o amigo. O Isaac o atirou, errando o carro por uns bons doze metros.
— Um pouco para a esquerda — o Gus disse.
— Meu lançamento foi um pouco para a esquerda ou eu preciso mirar um pouco para a esquerda?
— Mire para a esquerda. — O Isaac girou os ombros. — Mais para a esquerda — o Gus disse. O Isaac girou de novo. — Isso. Excelente. Agora atire com vontade.
O Gus deu a ele outro ovo, que o Isaac atirou, fazendo um arco sobre o carro e se estraçalhando no telhado em declive da casa.
— No alvo! — o Gus disse.
— Sério? — o Isaac perguntou, empolgado.
— Não, você atirou o ovo uns seis metros acima do carro. Atire com vontade, só que mais para baixo. E um pouco mais à direita de onde você estava da última vez.
O Isaac esticou a mão e pegou sozinho um ovo da caixa que o Gus segurava. Ele o atirou, acertando a lanterna traseira.
— Isso! — o Gus disse. — Isso! Lanterna!
O Isaac pegou outro ovo, errou um bocado para a direita, depois outro, errando para baixo, e então mais um, acertando o para-brisa traseiro. E aí emplacou três ovos seguidos na mala do carro.
— Hazel Grace — o Gus gritou para trás. — Tire uma foto para que o
Isaac possa ver isso quando inventarem olhos robóticos.
Ergui o corpo e me sentei na janela com o vidro abaixado, meus cotovelos no teto do carro, e tirei uma foto com o celular: o Augustus, o cigarro apagado na boca, seu sorriso deliciosamente torto, segurando a caixa de ovos cor-de-rosa basicamente vazia no alto da cabeça. Seu outro braço nos ombros do Isaac, cujos óculos escuros não estão exatamente virados para a câmera. Atrás deles, gemas de ovo escorrem pelo para-brisa e pelo para-choque do Firebird verde. E atrás de tudo, uma porta que se abre.
— O que — perguntou a mulher de meia-idade um segundo depois de eu tirar a foto —, em nome de Jesus… — E então parou de falar.
— Senhora — o Augustus disse, balançando a cabeça e olhando para ela —, o carro da sua filha acabou de ser merecidamente coberto de ovos por um cego. Feche a porta, por favor, e volte para dentro de casa, senão seremos forçados a chamar a polícia.
Depois de hesitar por alguns instantes, a mãe da Monica fechou a porta e desapareceu. O Isaac atirou os últimos três ovos um atrás do outro e o Gus o guiou de volta ao carro.
— Viu, Isaac, se você simplesmente tirar… estamos chegando perto do meio-fio agora… deles a sensação de legitimidade, se você inverter as coisas para que achem que são eles que estão cometendo um crime só de ver… só mais alguns passos… os carros sendo cobertos de ovos, eles ficarão confusos, assustados e com medo, e simplesmente voltarão… a maçaneta da porta está bem à sua frente… à vida tediosa deles.
O Gus passou apressado pela frente do carro e se aboletou no banco do carona. As portas se fecharam e eu acelerei, dirigindo várias dezenas de metros antes de me dar conta de que tinha ido na direção de uma rua sem saída. Fiz a volta no cul-de-sac e passei voada pela casa da Monica.
Nunca mais tirei outra foto dele.

A culpa é das estrelas- John Green- Parte 3

— Eu não deveria — ela respondeu —, mas sou rebelde. — E me deu outra colherada do gelo triturado.
Murmurei um ‚obrigada‛. Graças a Deus pelas boas enfermeiras.
— Está ficando cansada? — ela perguntou.
Fiz que sim.
— Durma um pouco — ela completou. — Vou tentar mexer uns pauzinhos e lhe dar algumas horas antes que entre alguém para verificar seus sinais vitais e coisas do gênero.
Agradeci mais uma vez. Em hospitais, você agradece o tempo todo. Tentei me ajeitar no leito.
— Você não vai perguntar nada sobre seu namorado? — ela me questionou.
— Eu não tenho namorado — falei.
— Bem, um garoto mal saiu da sala de espera desde que você chegou aqui — ela disse.
— Ele não me viu assim, viu?
— Não. Só a família.
Assenti com a cabeça e mergulhei num sono aquoso.
* * *
Ainda faltariam seis dias para eu voltar para casa, seis dias perdidos olhando para o isolamento acústico no teto, vendo televisão, dormindo, sentindo dor e querendo que o tempo passasse logo. Não vi o Augustus nem ninguém além dos meus pais. Meu cabelo parecia um ninho de passarinho; meu passo de cágado, o de um paciente com demência. Mas a cada dia me sentia ligeiramente melhor: cada sono acabava revelando uma criatura que se parecia um pouco mais comigo. O sono combate o câncer, disse meu médico, Jim, pela milésima vez quando pairou sobre mim certa manhã, rodeado por um grupo de estudantes de medicina.
— Então eu sou uma máquina de combate ao câncer — disse para ele.
— Isso você é mesmo, Hazel. Continue descansando e, com sorte, poderemos mandá-la para casa logo.
* * *
Na terça-feira, eles me disseram que eu iria para casa na quarta. Na quarta, dois residentes minimamente supervisionados removeram o dreno do meu tórax. A sensação foi de estar levando uma facada de dentro para fora, o que, no fim das contas, não saiu como deveria, por isso eles decidiram que eu teria de ficar até quinta. Já estava começando a pensar que eu era objeto de algum experimento existencialista de gratificação postergada em modo contínuo quando, na sexta-feira de manhã, a Dra. Maria apareceu, me farejou por um minuto e me disse que eu poderia ir embora.
Aí a mamãe abriu sua enorme bolsa e mostrou que lá dentro estavam, desde sempre, minhas Roupas de Ir Para Casa. Uma enfermeira veio e retirou os aparatos da terapia intravenosa. Eu me senti livre, mesmo ainda tendo de carregar o cilindro de oxigênio para todo lado. Entrei no banheiro, tomei meu primeiro banho em uma semana e me vesti. Quando saí, estava tão cansada que tive de deitar para recuperar o fôlego.
— Você quer ver o Augustus? — minha mãe perguntou.
— Pode ser — respondi, após alguns instantes.
Eu me levantei e me transferi para uma das cadeiras de plástico encostadas na parede, enfiando o cilindro debaixo dela. Aquilo acabou comigo.
Papai voltou com o Augustus minutos depois. O cabelo dele estava bagunçado, caindo na testa. Seu rosto se iluminou com um legítimo Sorriso Bobo à la Augustus Waters quando me viu, e também não consegui evitar um sorriso. Gus se sentou na poltrona reclinável azul de couro falso que estava perto da minha cadeira. Ele se inclinou para a frente, se aproximando de mim, aparentemente incapaz de conter o sorriso.
Mamãe e papai nos deixaram sozinhos, o que foi meio constrangedor. Eu me esforcei para olhar nos olhos dele, embora fossem tão lindos que eram quase impossíveis de encarar.
— Estava com saudade de você — o Augustus disse.
Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria.
— Obrigada por não tentar me ver quando eu parecia ter saído do inferno.
— Para falar a verdade, sua aparência ainda não está lá essas coisas.
Eu ri.
— Senti saudade de você também. Só não quero que você veja… tudo isso. Só quero, tipo… Não tem importância. Não é sempre que a gente pode ter o que quer.
— Sério? — ele perguntou. — Sempre pensei que o mundo fosse uma fábrica de realização de desejos.
— Acontece que não é esse o caso — falei. Ele era tão belo… Levantou a mão para pegar a minha mas eu balancei a cabeça negativamente. — Não — falei baixinho. — Se vamos ficar juntos, tem de ser, tipo, não assim.
— Tá — ele disse.
— Bem, eu tenho boas e más notícias no campo da realização de desejos.
— Então? — falei.
— A má notícia é que, obviamente, não vamos poder ir a Amsterdã
até você melhorar. Mas os Gênios vão executar a famosa magia deles quando estiver se sentindo bem o suficiente.
— Essa é a boa notícia?
— Não. A boa notícia é que, enquanto você dormia, Peter Van Houten compartilhou um pouco mais de sua mente genial conosco. Ele aproximou a mão da minha de novo, dessa vez para colocar nela uma folha bem dobrada, um papel timbrado sob o nome de Peter Van Houten, Romancista Emérito.
* * *
Não li a carta até entrar em casa e deitar na minha enorme cama vazia, sem qualquer chance de interrupção médica. Levei horas tentando decifrar a escrita inclinada e garranchosa de Van Houten.
Caro Sr. Waters,
Acabei de receber sua correspondência eletrônica com data de 14 de abril e estou devidamente impressionado com a complexidade shakespeariana de seu drama. Todos nessa história têm uma harmatia sólida como uma rocha: a dela, estar tão doente; a sua, estar tão bem. Se ela estivesse melhor ou o senhor, mais doente, então as estrelas não estariam tão terrivelmente cruzadas, mas é da natureza das estrelas se cruzar, e nunca Shakespeare esteve tão equivocado como quando fez Cássio declarar: ‚A culpa, meu caro Bruto, não é de nossas estrelas / Mas de nós mesmos.‛ Fácil falar quando se é um nobre romano (ou Shakespeare!), mas não há qualquer escassez de culpa em meio às nossas estrelas.
Permanecendo no assunto das falhas do bom e velho William, seu texto acerca da jovem Hazel me fez recordar o soneto cinquenta e cinco do bardo, que, como o senhor deve saber, começa assim: ‚Nem o mármore, nem os áureos mausoléus / De reis hão de durar mais que meu verso ardente; / Mas nele brilhareis mais refulgentemente / Do que a pedra
largada aos ultrajes do tempo.‛ (Fugindo um pouco do assunto, mas: que meretriz é o tempo. Nos fode a todos.) É um lindo poema, porém, enganoso: com certeza, nos lembramos dos versos ardentes de Shakespeare, mas o que temos em mente sobre a pessoa que ele homenageia? Nada. Temos quase certeza de que se trata de um homem; tudo mais é suposição. Shakespeare nos revelou muito pouco sobre o homem que sepultou em seu sarcófago linguístico. (Perceba também que, quando falamos de literatura, o fazemos no tempo presente. Quando falamos dos mortos, não somos tão generosos.) Não se imortaliza a perda escrevendo sobre eles. A escrita enterra, mas não ressuscita. (Declaração total e irrestrita: não sou o primeiro a fazer esta observação. Cf. o poema de MacLeish ‚Nem o mármore, nem os áureos mausoléus‚, que contém o verso heroico: ‚Direi que morrerás e não se lembrarão de teu passado.‛)
Estou a divagar, mas eis a falha: os mortos são visíveis apenas através do terrível olho vigilante da memória. Os vivos, graças aos céus, mantêm a capacidade de surpreender e de decepcionar. Sua Hazel está viva, Waters, e o senhor não deve impor sua vontade sobre a decisão de outrem, em particular uma decisão que foi tomada após muita ponderação. Ela deseja salvaguardá-lo da dor, e o senhor deve deixar que ela assim o faça. É possível que não ache a lógica da jovem Hazel persuasiva, mas tenho atravessado esse vale de lágrimas há mais tempo que o senhor e, do meu ponto de vista, não é ela a lunática.
Atenciosamente,
Peter Van Houten
Tinha sido mesmo escrita por ele. Lambi o dedo, umedeci o papel e a tinta borrou um pouco, e foi assim que soube que era verdadeiramente verdadeira.
— Mãe — disse.
Não falei muito alto, mas não precisava mesmo. Ela estava sempre à espera. Sua cabeça apareceu por trás da porta.
— Está tudo bem, querida?
— Podemos ligar para a Dra. Maria e perguntar se uma viagem internacional me mataria?
CAPÍTULO OITO
ós tivemos uma grande Reunião da Equipe do Câncer alguns dias depois. De vez em quando, médicos, assistentes sociais, fisioterapeutas e várias outras pessoas se reuniam em volta de uma mesa enorme numa sala de reunião e debatiam a minha situação. (Não a situação do Augustus Waters, nem a situação de Amsterdã. A situação do câncer.)
A Dra. Maria liderava a reunião. Ela me abraçou quando cheguei lá. Ela adorava abraçar.
Eu me sentia um pouco melhor, acho. Dormir com o BiPAP a noite toda fazia meus pulmões parecerem quase normais, embora, pensando bem, eu não me lembrasse direito de como era a normalidade pulmonar.
Todos chegaram lá e fizeram uma grande demonstração de como aquela reunião seria totalmente focada em mim ao desligarem seus pagers e tudo mais, e então a Dra. Maria disse:
— Bem, a boa notícia é que o Falanxifor continua a controlar a evolução do tumor, mas obviamente ainda estamos vendo sérios problemas com a acumulação de líquido. Então, a questão é: como devemos proceder?
E aí ela simplesmente olhou para mim, como se esperasse uma resposta.
— Humm — falei. — Acho que não sou a pessoa mais qualificada nesta sala para responder a essa pergunta.
Ela sorriu.
— Certo. Eu estava esperando a resposta do Dr. Simons. Dr. Simons?
Ele era outro médico de câncer de algum tipo.
— Bem, nós sabemos, pela experiência com outros pacientes, que a maioria dos tumores acaba achando um jeito de evoluir apesar do
N
Falanxifor, mas se fosse esse o caso, veríamos o crescimento do tumor nos exames de imagem, e não foi o que vimos. Portanto, ainda não se trata disso.
Ainda, pensei.
O Dr. Simons batia na mesa com o indicador.
— O consenso aqui é que é possível que o Falanxifor esteja piorando o edema, mas nós depararíamos com problemas muito mais sérios se descontinuássemos seu uso.
A Dra. Maria acrescentou:
— Não conhecemos os efeitos reais do Falanxifor após muitos anos de uso. Pouquíssimas pessoas vêm se tratando com ele a mesma quantidade de tempo que você.
— Então não vamos fazer nada?
— Vamos continuar com esse procedimento — a Dra. Maria disse —, mas precisaremos nos esforçar mais para evitar a piora do edema.
Fiquei meio enjoada por algum motivo que não sei qual, como se fosse vomitar. Eu odiava as Reuniões da Equipe do Câncer, em geral, mas odiei essa especialmente.
— Seu câncer não vai sumir daí, Hazel. Mas já vimos pessoas viverem com o mesmo nível de penetração tumoral por muito tempo.
(Eu não perguntei o que constituía o ‚muito tempo‛. Já havia cometido este erro antes.)
— Sei que, por ter acabado de sair da UTI, a sensação é outra, mas esse líquido é, pelo menos por enquanto, administrável — ela concluiu.
— Não dá para simplesmente eu fazer tipo um transplante ou algo assim? — perguntei.
Os lábios da Dra. Maria sumiram para dentro da boca.
— Infelizmente, você não seria considerada uma forte candidata para um transplante — ela disse.
E eu entendi: não fazia sentido desperdiçar pulmões bons em um caso perdido. Assenti com a cabeça, tentando não deixar transparecer que aquele comentário havia me magoado. Meu pai começou a chorar baixinho. Não olhei para ele, mas ninguém disse nada por um bom tempo,
e então o choro dele era o único ruído sendo emitido naquela sala. Eu odiava fazê-lo sofrer. A maior parte do tempo, conseguia não me lembrar disso, mas a verdade inexorável era: eles podiam estar felizes por me ter por perto, mas eu era o alfa e o ômega no sofrimento dos meus pais.
* * *
Logo antes do Milagre, quando eu estava na UTI e parecia que ia morrer, e a mamãe ficava me dizendo que estava tudo bem, que eu poderia descansar em paz — e eu bem que tentava descansar em paz, mas meus pulmões continuavam procurando pelo ar —, a mamãe soluçou algo no peito do papai que eu preferiria não ter ouvido, e esperava que ela nunca descobrisse que eu ouvi. Ela falou: ‚Eu vou deixar de ser mãe.‛ Isso arrasou comigo.
Não consegui parar de pensar nesse episódio durante toda a Reunião da Equipe do Câncer. Não conseguia tirá-lo da cabeça, o som da voz dela quando disse a frase, como se nunca mais fosse ficar bem de novo, o que provavelmente aconteceria.
* * *
Enfim, acabamos resolvendo manter as coisas do jeito que estavam, a única diferença sendo as drenagens mais frequentes do líquido. Ao término da reunião, perguntei se poderia viajar para Amsterdã, e o Dr. Simons riu, literalmente, mas a Dra. Maria perguntou:
— Por que não?
O Simons questionou, meio hesitante:
— Por que não?!
E a Dra. Maria completou:
— É. Eu não vejo por que não. Eles têm oxigênio nos aviões, no fim das contas.
O Dr. Simons disse:
— Quer dizer que eles vão despachar um BiPAP?
E a Maria respondeu:
— Sim. Ou vão ter um lá esperando por ela.
— Colocar uma paciente, nada menos que um dos sobreviventes mais promissores do Falanxifor, a oito horas de voo da única médica intimamente familiarizada com o caso dela? É a receita para um desastre.
A Dra. Maria deu de ombros:
— Aumentaria alguns riscos — ela reconheceu, e depois virou para mim e completou:
— Mas é a vida dela.
* * *
Só que, nem tanto. No carro, na volta para casa, meus pais decidiram: eu não iria a Amsterdã a menos, e até, que houvesse um consenso entre os médicos de que seria seguro para mim.
* * *
O Augustus me ligou naquela noite depois do jantar. Eu já estava na cama — meu toque de recolher havia mudado provisoriamente para logo depois do jantar —, apoiada num zilhão de travesseiros, o Azulzinho do lado, computador no colo. Atendi falando logo:
— Má notícia.
E ele disse:
— Merda. O que aconteceu?
— Não posso ir a Amsterdã. Um dos meus médicos não acha que seja uma boa ideia.
Ele ficou calado por um instante.
— Cara — disse, por fim. — Eu deveria ter pago a viagem com o meu dinheiro. Deveria ter levado você direto dos Ossos Maneiros para Amsterdã.
— Mas aí eu provavelmente teria tido um episódio fatal de desoxigenação em Amsterdã, e meu corpo teria sido despachado de volta
no compartimento de carga do avião — falei.
— É, pode ser — ele disse. — Mas, antes disso, meu gesto extremamente romântico com certeza teria levado você direto para a minha cama.
Eu ri muito, tanto que até senti dor no ponto em que o dreno torácico tinha estado.
— Você ri porque sabe que é verdade — ele disse e eu ri de novo. — É verdade, não é?!
— Provavelmente não — falei e, depois de alguns instantes, acrescentei: — Mas, nunca se sabe.
Ele gemeu, em ânsias:
— Eu vou morrer virgem — falou.
— Você é virgem? — perguntei, surpresa.
— Hazel Grace — ele disse —, você tem uma caneta e uma folha de papel? — Respondi que tinha. — Então tá. Desenhe um círculo, por favor. — Desenhei. — Agora faça um círculo menor dentro dele. — Obedeci. — O círculo maior representa os virgens. O círculo menor é composto por jovens de dezessete anos com uma perna só.
Ri mais uma vez e argumentei que o fato de a maior parte das atividades sociais dele ocorrerem num hospital pediátrico também não ajudava muito no quesito promiscuidade. Aí falamos sobre o comentário extremamente genial de Peter Van Houten quanto à meretricidade do tempo e, mesmo eu estando na minha cama e o Augustus, no porão dele, realmente deu a impressão de que estávamos de volta àquela terceira dimensão invisível, lugar que gostei muito de visitar na companhia dele.
Depois que desliguei o telefone, minha mãe e meu pai entraram no meu quarto e, mesmo a minha cama não sendo grande o suficiente para nós três, eles se deitaram comigo, cada um de um lado, e todos assistimos ao ANTM na minha televisãozinha. A garota de quem eu não gostava, Selena, tinha sido eliminada do programa, o que por algum motivo me deixou bastante satisfeita. Então mamãe me conectou ao BiPAP e ajeitou as cobertas em cima de mim, papai beijou minha testa, um beijo arranhado, de barba malfeita, e, por fim, fechei os olhos. Basicamente, o

que o BiPAP fazia era assumir o controle da minha respiração, o que era muito incômodo, mas o grande barato era o barulho que fazia, ressoando a cada inspiração e chiando quando eu expirava.
Eu ficava pensando que aquele som parecia o de um dragão respirando ao mesmo tempo que eu, como se eu tivesse um dragão como bicho de estimação, aninhado junto a mim, e que se importava tanto comigo que até sincronizava sua respiração com a minha. Estava pensando nisso quando mergulhei num sono profundo.
* * *
Acordei tarde na manhã seguinte. Vi televisão ainda na cama, li meus e-mails e, depois de um tempo, comecei a rascunhar uma mensagem para o Peter Van Houten contando por que não conseguiria ir a Amsterdã, mas dizendo que jurava pela vida da minha mãe que nunca compartilharia qualquer informação sobre os personagens com ninguém, que eu nem queria dividir isso com ninguém, porque eu era uma pessoa incrivelmente egoísta, e que, por favor, será que ele poderia me dizer se o Homem das Tulipas Holandês é ou não um vigarista e se a mãe da Anna se casa com ele e, também, o que aconteceu com Sísifo, o hamster?
Mas não enviei. Era patético demais, até para mim.
Lá pelas três da tarde, imaginando que o Augustus já teria chegado em casa da escola, fui até o quintal e liguei para ele. Enquanto o telefone tocava me sentei na grama, que já estava bem alta e apinhada de dentes-de-leão. O balanço ainda estava lá, ervas daninhas brotando da pequena vala que eu havia criado com os pés ao me impulsionar cada vez mais alto quando era bem novinha. Lembrei do dia em que papai trouxe para casa o kit de balanço da Toys ‚R‛ Us e montou aquele aparato no quintal com a ajuda de um vizinho. Ele insistiu em se balançar primeiro para testar a resistência do brinquedo, e o troço quase quebrou todo.
O céu estava cinzento e nublado, mas não chovia ainda. Desliguei quando ouvi a voz do Augustus na saudação da caixa postal e coloquei o telefone no chão ao meu lado. Continuei olhando para o balanço,
pensando que eu abriria mão de todos os dias doentes que me restavam em troca de uns poucos saudáveis. Tentei me convencer de que poderia ser pior, que o mundo não era uma fábrica de realização de desejos, que eu estava vivendo com câncer e não morrendo por causa dele, que eu não deveria deixar que ele me matasse antes da hora, e aí comecei a murmurar idiota idiota idiota idiota idiota idiota sem parar até que o som da palavra se desassociou do seu significado. Ainda estava repetindo quando ele retornou a minha ligação.
— Oi — falei.
— Hazel Grace — ele disse.
— Oi — falei de novo.
— Você está chorando, Hazel Grace?
— Mais ou menos.
— Por quê? — ele perguntou.
— Porque eu… eu quero ir a Amsterdã, quero que ele me diga o que acontece depois que o livro acaba, e simplesmente não quero mais essa vida, e, além disso, o céu está me deixando deprimida, e tem esse velho balanço aqui que meu pai montou para mim quando eu era criança.
— Preciso ver esse velho balanço de lágrimas imediatamente — ele disse. — Chego aí em vinte minutos.
* * *
Continuei no quintal porque minha mãe sempre ficava muito angustiada e preocupada quando eu chorava, já que eu não chorava com frequência, e sabia que ela ia querer conversar e debater se eu não deveria considerar fazer alterações nos meus remédios, e só de pensar na possibilidade dessa conversa toda fiquei com vontade de vomitar.
Não que eu tivesse uma lembrança clara e comovente de um pai saudável empurrando uma criança saudável no balanço e a criança dizendo mais alto mais alto mais alto, ou de algum outro momento metaforicamente ressonante. O balanço só estava lá, abandonado, as duas cadeirinhas, imóveis e tristes, penduradas de uma tábua acinzentada de
madeira, o formato dos assentos parecendo o traço de um sorriso feito por uma criança.
Atrás de mim, ouvi o ruído da porta de correr de vidro se abrindo. Virei o corpo. Era o Augustus, com uma calça cáqui e uma camisa xadrez de manga curta. Enxuguei o rosto na manga da blusa e sorri.
— Oi — falei. Ele demorou um pouquinho para se sentar no chão ao meu lado, e fez uma careta ao aterrissar um tanto desajeitadamente de bunda.
— Oi — falou, por fim. Olhei para ele e vi que observava o quintal atrás de mim.
— Entendo o que você quer dizer — ele disse e passou o braço por cima dos meus ombros.
— Aquele é um pedaço de balanço triste e maldito. Aninhei a cabeça no ombro dele.
— Obrigada por se oferecer para vir aqui.
— Você sabe que tentar me manter a distância não vai diminuir o que eu sinto por você — ele disse.
— Talvez? — falei.
— Todos os esforços para me proteger de você serão inúteis — ele disse.
— Por quê? Por que é que você deveria sequer gostar de mim? Já não se colocou em situações difíceis assim o suficiente? — perguntei, pensando em Caroline Mathers.
O Gus não respondeu. Ele só ficou ali, me abraçando, os dedos firmes no meu braço esquerdo.
— Precisamos fazer algo a respeito desse raio de balanço — ele falou. — Vou dizer uma coisa para você: ele é o responsável por noventa por cento do problema.
* * *
Assim que me refiz, entramos e sentamos no sofá, lado a lado, o laptop metade apoiado no joelho (de mentira) dele e a outra metade, no meu.
— Quente — comentei sobre o fundo do laptop.
— Está mesmo? — Ele sorriu.
Gus acessou um site de doações chamado Grátis Sem Pegadinha e juntos redigimos um anúncio.
— Título? — ele perguntou.
— Balanço Precisa de um Lar — falei.
— Balanço Extremamente Solitário Necessita de um Lar Amoroso — ele disse.
— Balanço Solitário e Ligeiramente Pedofílico Procura Bumbuns de Crianças — falei.
Ele riu.
— É por isso.
— O quê?
— É por isso que gosto de você. Você tem ideia de como é raro encontrar uma gata que use essa versão adjetivada do substantivo pedófilo? Você está tão ocupada sendo você mesma que não faz ideia de quão absolutamente sem igual você é. Respirei fundo pelo nariz. Nunca havia ar suficiente no mundo, mas a carência dele naquele momento estava particularmente crítica.
Escrevemos juntos o anúncio, fazendo as devidas edições às nossas ideias conforme íamos digitando. Por fim, acabamos com o seguinte texto:
Balanço Extremamente Solitário Necessita de Um Lar Amoroso
Um balanço bastante usado, mas em condições estruturalmente boas, procura um novo lar. Crie lembranças com seu filho, ou filhos, para que um dia ele, ou ela, ou eles olhem para o quintal e sintam o mesmo tipo de sentimentalismo que experimentei esta tarde. Tudo é frágil e efêmero, caro leitor, mas com este balanço seu filho conhecerá os altos e baixos da vida devagar e com segurança, e também poderá aprender a lição mais crucial de todas: não importa quão forte seja o impulso, não importa o quão alto se chegue, não será possível dar uma volta completa.
O balanço reside atualmente na Rua 83, quase esquina com a Spring Mill.
Depois disso ligamos a televisão por um tempo, mas não conseguimos achar nada que nos interessasse, então peguei o exemplar de Uma aflição imperial da mesa de cabeceira, levei o volume para a sala de estar e o Augustus Waters leu algumas páginas para mim, enquanto mamãe, que preparava o almoço, escutava.
— ‚O olho de vidro da mãe da Anna virou ao contrário‛ — o Augustus começou.
Enquanto ele lia, me apaixonei do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra.
* * *
Quando verifiquei meus e-mails uma hora depois, descobri que havia vários candidatos para o balanço dentre os quais poderíamos escolher. No fim, selecionamos um cara chamado Daniel Alvarez, que anexou uma foto de seus três filhos jogando videogame e, no assunto do e-mail, escreveu: Só quero que eles brinquem ao ar livre. Respondi à mensagem dizendo que poderia buscar o balanço quando bem entendesse.
O Augustus me perguntou se eu queria ir com ele à reunião do Grupo de Apoio, mas eu estava muito cansada, depois de passar um dia inteiro ocupada Tendo Câncer, por isso declinei do convite. Estávamos no sofá quando ele empurrou o corpo para cima, para se levantar, mas acabou caindo sentado de novo e me tacou um beijo na bochecha.
— Augustus! — exclamei.
— Beijo de amigo — ele disse. Empurrou o corpo para cima novamente, dessa vez permanecendo de pé, e então deu dois passos na direção da minha mãe. — É sempre um prazer vê-la — ele disse, e minha mãe abriu os braços para lhe dar um abraço, no que o Augustus se inclinou e deu um beijo na bochecha dela. E se virou para mim: — Viu? — perguntou.
Fui para a cama logo após o jantar, o BiPAP suprimindo o mundo que ficava do lado de fora do meu quarto.
E nunca mais vi o balanço.
* * *
Dormi bastante tempo, dez horas, provavelmente por causa do processo lento de recuperação, provavelmente porque o sono combate o câncer e provavelmente porque eu era uma adolescente sem hora certa para acordar. Ainda não me sentia forte o suficiente para voltar a frequentar as aulas no MCC. Quando, enfim, tive vontade de levantar, tirei a máscara do BiPAP do nariz, coloquei o cateter do oxigênio nas narinas, liguei o aparelho e tirei o laptop de debaixo da cama, onde o tinha guardado na noite anterior. Lá havia um e-mail da Lidewij Vliegenthart.
Cara Hazel,
Recebi uma mensagem dos Gênios dizendo que você virá nos visitar com Augustus Waters e sua mãe, chegando aqui no dia 4 de maio. Em apenas uma semana! Peter e eu estamos encantados e não vemos a hora de conhecê-los pessoalmente. Seu hotel, o Filosoof, fica a apenas uma rua da casa do Peter. Talvez devêssemos dar um dia para que vocês se recuperem dos efeitos do jet lag? Sendo assim, se for conveniente, nós os encontraremos na casa do Peter na manhã do dia 5 de maio, talvez às dez horas, para uma xícara de café e para que ele responda às perguntas que você quer fazer sobre o livro dele. E, depois disso, nós poderíamos talvez fazer uma visita a um museu ou à Casa de Anne Frank.
Cordialmente,
Lidewij Vliegenthart
Assistente-executiva do Sr. Peter Van Houten,
autor de Uma aflição imperial
— Mãe — falei. Ela não respondeu. — MÃE! — gritei. Nada. De novo, mais alto: — MÃE!
Ela veio correndo enrolada numa toalha cor-de-rosa velhinha, toda pingando, ligeiramente em pânico.
— O que aconteceu?
— Nada. Foi mal. Eu não sabia que você estava tomando uma chuveirada.
— Eu estava na banheira — ela disse. — Só estava… — Fechou os olhos. — Só estava tentando tomar um banho de banheira de cinco segundos. Perdão. O que está havendo?
— Você poderia ligar para os Gênios e dizer a eles que a viagem foi cancelada? Acabei de receber um e-mail da assistente do Peter Van Houten. Ela acha que vamos até lá.
Mamãe franziu os lábios e passou por mim com os olhos semicerrados.
— O quê? — perguntei.
— Não era para eu dizer nada até seu pai chegar.
— O quê? — perguntei de novo.
— A viagem está de pé — ela disse, por fim. — A Dra. Maria nos ligou ontem à noite e nos convenceu de que você precisa viver a sua…
— MÃE, EU TE AMO TANTO! — gritei.
Ela foi até a minha cama e deixou que eu a abraçasse.
Mandei um torpedo para o Augustus porque sabia que ele estava na escola:
Ainda disponível dia três de maio? :-)
Ele respondeu na mesma hora.
Está tudo indo às mil maravilhas para o meu lado.
Se ao menos eu conseguisse ficar viva por uma semana, conheceria os segredos não publicados da mãe de Anna e do Homem das Tulipas
Holandês. Dei uma espiada na minha blusa, na altura do peito.
— Vocês têm de se comportar — sussurrei para meus pulmões.
CAPÍTULO NOVE
m dia antes da viagem para Amsterdã voltei à reunião do Grupo de Apoio pela primeira vez desde que conheci o Augustus. O elenco havia sido ligeiramente alterado ali no Coração Literal de Jesus. Cheguei cedo, o suficiente para que Lida — a sempre forte sobrevivente do câncer de apêndice — me atualizasse a respeito de todo mundo enquanto eu comia um cookie industrializado de chocolate encostada na mesa de biscoitos.
Michael, o leucêmico de doze anos de idade, tinha partido desta para melhor. Ele lutara bravamente, me contou a Lida, como se houvesse qualquer outra forma de lutar. O resto do pessoal ainda continuava por lá. Ken estava SEC desde que terminara a radioterapia. Lucas teve uma recaída, e a Lida disse aquilo com um sorriso amarelado e um leve ‚dar de ombros‛, da mesma forma que contaria que um alcoólatra teve uma recaída.
Uma menina gordinha e bonitinha se aproximou da mesa, disse ‚oi‛ para a Lida e depois se apresentou para mim como Susan. Eu não sabia ao certo qual era o problema dela, mas havia em seu rosto uma cicatriz que ia da lateral do nariz até o lábio e atravessava a bochecha. A Susan tinha passado maquiagem na cicatriz, o que só serviu para chamar mais atenção. Eu estava com um pouco de falta de ar por causa daquele tempo todo em pé, então falei:
— Vou me sentar ali.
Foi quando o elevador se abriu, revelando o Isaac e a mãe. Ele estava de óculos escuros e se apoiava no braço da mãe com uma das mãos, a bengala na outra.
— A Hazel do Grupo de Apoio e não a Monica — falei, quando ele chegou perto o suficiente. O Isaac sorriu e disse:
— E aí, Hazel. Como vão as coisas?
U
— Tudo bem. Fiquei totalmente gata depois que você perdeu a visão.
— Aposto que sim — Ele comentou.
A mãe o guiou até uma cadeira, beijou a cabeça dele e se deslocou de volta até o elevador. O Isaac tateou o espaço abaixo do corpo e se sentou. Eu me acomodei numa cadeira ao seu lado.
— E então, como está tudo?
— Bem. Feliz por ter voltado para casa, acho. O Gus me disse que você passou pela UTI.
— É — respondi.
— Que droga! — ele disse.
— Estou bem melhor agora — falei. — Vou para Amsterdã com o Gus amanhã.
— Sei disso. Estou bastante atualizado a respeito da sua vida, porque o Gus nunca. Fala. De. Outra. Coisa.
Sorri. O Patrick pigarreou e disse:
— Se todos pudermos ocupar nossos assentos… — O olhar dele cruzou com o meu. — Hazel! — falou. — Estou tão feliz em vê-la!
Todos se sentaram e o Patrick começou a recontar a história da sua ausência de bolas, o que me levou a retomar a rotina do Grupo de Apoio: me comunicando com o Isaac por meio de suspiros, me sentindo mal por todas as pessoas naquele cômodo e também por todas as pessoas fora dele, me distraindo da conversa para me concentrar na minha falta de ar e na dor. O mundo continuou girando, como sempre, sem a minha participação integral, e eu só despertei do meu devaneio quando alguém disse meu nome.
Foi Lida, a Forte. A Lida em remissão. A loira, saudável, robusta Lida, que fazia parte do time de natação da escola. A Lida, que só não tinha o apêndice, falou meu nome, dizendo:
— A Hazel é uma baita fonte de inspiração para mim; de verdade. Ela continua lutando, acordando todos os dias e indo para a guerra sem reclamar. Ela é tão forte... Tão mais forte que eu. Queria ter sua força.
— Hazel? — indagou o Patrick.
— Como você se sente ao ouvir isso?
Encolhi os ombros e olhei para a Lida.
— Dou minha força para você se puder ter sua remissão em troca. — O sentimento de culpa me invadiu assim que completei a frase.
— Não acho que tenha sido isso o que a Lida quis dizer — o Patrick falou. — Acho que ela…
Mas eu já havia parado de prestar atenção.
Depois das preces para os vivos e da ladainha interminável dos mortos (com o Michael adicionado no fim), demos as mãos e dissemos:
— Vivendo o melhor da nossa vida hoje!
A Lida foi correndo me pedir desculpas e se justificar, e eu disse:
— Não, não, está tudo bem — fazendo um gesto de ‚deixe pra lá‛ com a mão, e falei para o Isaac: — Você se incomoda de me acompanhar até lá em cima?
Ele pegou meu braço e eu o guiei até o elevador, grata por ter uma desculpa para evitar a escada. Já tinha quase percorrido o caminho todo quando vi a mãe dele parada num canto do Coração Literal.
— Estou aqui — ela disse para o Isaac, e ele trocou o meu braço pelo dela.
Então me perguntou:
— Você quer ir lá em casa?
— Claro — respondi.
Eu me sentia mal por ele. E mesmo odiando a pena que as pessoas tinham de mim, não consegui evitar ter pena dele.
* * *
O Isaac morava numa pequena casa estilo rancho em Meridian Hills, ao lado de uma escola particular para crianças ricas. Nós nos sentamos na sala de estar enquanto a mãe dele foi até a cozinha preparar o jantar, e aí ele me perguntou se eu queria jogar.
— Claro — respondi.
Isaac me pediu que lhe passasse o controle. Fiz isso e ele ligou a televisão e um computador que estava conectado a ela. A tela da TV
continuou preta, mas, após alguns segundos, uma voz grave começou a falar de dentro do aparelho.
Deception, disse a voz. Um ou dois jogadores?
— Dois — respondeu o Isaac. — Pausar. — E virou-se para mim. — Eu jogo isso direto com o Gus, mas é muito irritante porque ele é um jogador de videogame totalmente suicida. Ele é, tipo, muito radical quando se trata de salvar civis e coisa e tal.
— É — falei, lembrando da noite dos troféus destroçados.
— Recomeçar — o Isaac falou.
Jogador um, identifique-se.
— Essa é a voz ultrassensual do jogador um — o Isaac disse.
Jogador dois, identifique-se.
— O jogador dois sou eu, acho — falei.
O Sargento Max Mayhem e o soldado Jasper Jacks acordam em um lugar escuro e vazio, de aproximadamente um metro quadrado.
O Isaac apontou para a TV, como se eu devesse me dirigir a ela ou coisa assim.
— Humm — falei. — Tem algum interruptor para acender a luz?
Não.
— Tem alguma porta?
O soldado Jacks localiza a porta. Está trancada.
O Isaac se juntou a mim.
— Tem uma chave em cima do batente da porta.
Sim.
— Mayhem abre a porta.
A escuridão continua total.
— Empunhar faca — o Isaac disse.
— Empunhar faca — repeti.
Uma criança, que deduzi ser o irmão do Isaac, saiu correndo da cozinha. Devia ter uns dez anos, toda agitada e elétrica, e meio que cruzou a sala de estar pulando e gritando, numa imitação perfeita da voz do Isaac:
— ME MATE.
O Sargento Mayhem coloca a faca no pescoço. Tem certeza de que
você…
— Não — disse o Isaac. — Pausar. Graham, não me faça sair daqui e te dar um chute no traseiro.
O Graham deu uma risadinha e saiu furtivamente por um corredor.
Na pele do Mayhem e do Jacks, o Isaac e eu avançamos tateando pela caverna até que esbarramos num cara que acabamos esfaqueando, depois de forçá-lo a nos confessar que estávamos numa prisão subterrânea na Ucrânia, mais de um quilômetro abaixo da superfície. Conforme continuávamos, efeitos sonoros — um rio subterrâneo ruidoso, vozes falando ucraniano e inglês com sotaque — nos guiavam pela caverna, mas não havia nada para ver naquele jogo. Depois de uma hora inteira, começamos a ouvir os gritos de um prisioneiro desesperado, implorando: ‚Deus, me ajude. Deus, me ajude.‛
— Pausar — o Isaac falou. — É sempre nessa hora que o Gus insiste em encontrar o prisioneiro, mesmo que isso nos impeça de vencer o jogo, e a única maneira de conseguir libertar o prisioneiro de verdade é vencendo o jogo.
— É. Ele leva muito a sério os jogos de videogame — falei. — Ele é apaixonado por metáforas.
— Você gosta dele? — o Isaac perguntou.
— Claro que gosto. Ele é legal.
— Mas você não quer namorar o cara?
Dei de ombros.
— É complicado.
— Sei o que está tentando fazer. Você não quer dar para ele algo com que ele não vai conseguir lidar. Você não quer que ele Monifique você — o Isaac disse.
— Mais ou menos isso — falei. Mas não era nada disso. A verdade é que eu não queria Isaaquificar o Gus. — Para não ser injusta com a Monica — falei —, o que você fez com ela também não foi muito legal.
— O que foi que eu fiz com ela? — ele perguntou, na defensiva.
— Você sabe, ter ficado cego e tudo mais.
— Mas isso não foi culpa minha — ele disse.
— Não estou dizendo que foi culpa sua. Estou dizendo que não foi legal.
CAPÍTULO DEZ
ó levamos uma mala. Eu não tinha como carregar minha bagagem e mamãe bateu pé dizendo que não seria capaz de carregar duas, então tivemos de lutar pelo espaço na mala preta que meus pais ganharam de presente de casamento um milhão de anos atrás — mala esta que deveria ter passado sua vida útil em lugares exóticos, mas que acabou praticamente só indo e voltando de Dayton, onde a Morris Property, Inc., tinha uma filial que o papai visitava com frequência.
Argumentei com a mamãe que eu deveria ter direito a um pouco mais do que só a metade da mala, porque, para início de conversa, sem mim e meu câncer nós nem iríamos a Amsterdã. Mamãe contra-argumentou que, por ser duas vezes maior que eu e, portanto, precisar de mais metros de tecido para proteger seu pudor, deveria ter direito a pelo menos dois terços da mala.
No fim, ambas perdemos. É a vida.
Nosso voo só sairia ao meio-dia, mas a mamãe me acordou às cinco e meia, acendendo a luz e gritando:
— AMSTERDÃ!
Ela ficou andando de um lado para outro a manhã inteira se certificando de que tínhamos adaptadores de tomada e verificando pelo menos umas quatro vezes se tínhamos a quantidade certa de cilindros de oxigênio que durassem até lá, e se estavam todo cheios etc., enquanto eu simplesmente rolei da cama, vesti minha Roupa de Viagem para Amsterdã (calça jeans, camiseta cor-de-rosa e um cardigã preto, para o caso de o avião estar frio).
Às seis e quinze a bagagem já estava na mala do carro, e então mamãe insistiu que tomássemos café da manhã com o papai, embora fosse uma questão de princípio, para mim, não comer antes de o sol nascer, simplesmente porque eu não era um camponês russo do século dezenove
S
me alimentando para me fortalecer antes de um dia inteiro de trabalho braçal. Mas mesmo assim tentei botar para dentro um pouco de ovo mexido enquanto mamãe e papai se deliciavam com a versão doméstica do Egg McMuffin que tanto amavam.
— Por que comidas de café da manhã são comidas de café da manhã? — perguntei a eles. — Tipo, por que não comemos curry no café da manhã?
— Hazel, coma.
— Mas por quê? — perguntei. — Na boa, falando totalmente sério: por que é que os ovos mexidos passaram a ser exclusividade do café da manhã? Você pode colocar bacon num sanduíche sem que ninguém dê nenhum chilique. Mas no instante em que seu sanduíche ganha um ovo, vira um sanduíche de café da manhã.
Papai respondeu de boca cheia.
— Quando vocês voltarem, tomaremos café da manhã no jantar. Combinado?
— Eu não quero tomar ‚café da manhã‛ no jantar — respondi, cruzando os talheres no prato praticamente cheio. — Quero comer ovos mexidos no jantar sem essa concepção ridícula de que uma refeição que inclua ovos mexidos tem de ser café da manhã mesmo que seja hora do jantar.
— Você precisa escolher as causas pelas quais vai lutar nesse mundo, Hazel — minha mãe disse. — Mas se esta é a que você quer defender, ficaremos do seu lado.
— Do lado de trás — o papai acrescentou, e mamãe riu.
Eu sabia que era tolice, mas ainda assim me senti meio mal pelos ovos mexidos. Logo que eles acabaram de comer, papai lavou os pratos e nos acompanhou até o carro. Logicamente, começou a chorar, e beijou minha bochecha encostando nela a cara molhada e áspera. Ele apertou o nariz contra a maçã do meu rosto e sussurrou:
— Te amo. Estou tão orgulhoso de você...
(Pelo quê, exatamente, me perguntei.)
— Obrigada, pai.
— Vejo você em alguns dias, querida. Te amo tanto!
— Eu também, pai. — Sorri. — Serão só três dias.
Ao percorrermos a entrada de carros de ré, fiquei acenando para ele. Ele acenava também, e chorava. Passou pela minha cabeça o fato de que ele talvez estivesse pensando que era possível que não fosse me ver nunca mais, o que talvez fosse o que ele pensava todo dia de semana de manhã antes de ir para o trabalho, e isso devia ser uma droga. Mamãe e eu fomos de carro até a casa do Augustus e, assim que chegamos lá, ela quis que eu ficasse no carro para descansar, mas fui até a porta mesmo assim. Quando nos aproximamos, pude ouvir alguém chorando lá dentro. Num primeiro momento, não achei que fosse o Gus, porque o choro não soava nada parecido com o tom suave do jeito de falar dele, mas aí escutei uma voz que com certeza era uma versão alterada da dele dizendo: ‚PORQUE A VIDA É MINHA, MÃE. ELA PERTENCE A MIM.‛ Mais que depressa, mamãe colocou o braço nos meus ombros, me virou e me levou de volta para o carro, andando rápido.
— Mãe! O que aconteceu? — perguntei.
E ela respondeu:
— Não podemos ficar ouvindo a conversa dos outros, Hazel.
Entramos no carro e mandei uma mensagem de texto para o Augustus dizendo que estávamos lá fora esperando por ele.
Ficamos olhando para a casa por um tempo. O mais estranho nas casas é que quase sempre elas dão a impressão de que não tem nada acontecendo do lado de dentro, embora a maior parte das nossas vidas seja passada lá.
Fiquei me perguntando se esse seria mais ou menos o objetivo da arquitetura.
— Bem — mamãe disse após alguns instantes —, acho que chegamos muito cedo.
— É quase como se eu não precisasse ter acordado às cinco e meia — falei.
Mamãe pegou a caneca de café no console do carro e tomou um gole. Meu celular vibrou. Uma mensagem de texto do Augustus.
NÃO CONSIGO decidir o que usar.
Você prefere me ver de camisa polo ou de camisa de botão?
Respondi:
De botão.
Trinta segundos depois a porta se abriu e um Augustus sorridente apareceu, carregando uma mala de rodinha. Ele estava com uma camisa azul-celeste de botão bem passada, por dentro da calça jeans. Um cigarro Camel Light pendia dos lábios. Minha mãe saiu do carro para cumprimentá-lo. Ele tirou o cigarro da boca por um instante e falou com o tom de voz confiante que eu estava acostumada a ouvir.
— É sempre um prazer vê-la, madame.
Fiquei olhando para eles pelo retrovisor até a mamãe abrir a mala. Um tempo depois o Augustus abriu a porta atrás da minha e se lançou na tarefa complicada de entrar, com apenas uma perna, no assento traseiro de um carro.
— Você quer ir no banco do carona? — perguntei.
— De jeito nenhum — ele respondeu. — E oi, Hazel Grace.
— Oi — falei. — Tudo o.k.? — perguntei.
— Tudo o.k. — ele disse.
— O.k. — falei.
Mamãe entrou no carro e fechou a porta.
— Próxima parada, Amsterdã — ela anunciou.
* * *
O que não era exatamente verdade. A próxima parada foi o estacionamento do aeroporto, e aí um ônibus nos levou para o terminal, e depois um carrinho elétrico aberto nos transportou até o local da inspeção de segurança. O cara da TSA estava lá no começo da fila, aos berros, dizendo
que era melhor que nossa bagagem de mão não contivesse bombas nem armas de fogo nem qualquer recipiente com mais de 100 ml de líquido, e aí eu virei para o Augustus e disse:
— Observação: ficar de pé em fila é uma forma de opressão.
Ao que ele falou:
— Na moral.
Em vez de passar pela revista manual, escolhi atravessar o detector de metais sem o carrinho nem o cilindro, e nem mesmo o cateter de plástico no nariz. Cruzar o aparelho de raios X marcou a primeira vez, em alguns meses, que dei um passo sem o oxigênio, e foi ótima a sensação de andar livremente daquele jeito, transpondo o Rubicão, o silêncio da máquina reconhecendo que eu era, ainda que só por alguns instantes, uma criatura não metalizada.
Senti uma soberania corporal que não dá para descrever direito. O que posso dizer é que foi mais ou menos como quando eu era pequena e tinha uma mochila pesadíssima, cheia de livros, que eu levava para todo lado. Depois de andar muito tempo com ela, sentia como se estivesse flutuando assim que a tirava das costas.
Após uns dez segundos, meus pulmões pareciam que estavam se dobrando sobre si mesmos como flores que se fecham ao anoitecer. Caí sentada num banco cinza localizado logo após a máquina e tentei recobrar o fôlego, minha tosse um ruído rouco, e me senti bastante mal até recolocar a cânula.
E mesmo assim doía. A dor estava sempre presente, me puxando para dentro, exigindo ser sentida. Cada vez que alguma coisa no mundo exterior demandava um comentário meu ou a minha atenção, parecia que eu acordava da dor. Mamãe me olhava, preocupada. Ela acabara de falar alguma coisa. O que foi que ela disse? Então me lembrei. Ela havia perguntado qual era o problema.
— Nada — respondi.
— Amsterdã! — ela exclamou.
Sorri.
— Amsterdã — repeti.
Ela estendeu o braço para mim, me deu a mão e me puxou para que eu me levantasse.
* * *
Chegamos ao portão uma hora antes do horário marcado para o embarque.
— Sra. Lancaster, a senhora é uma pessoa impressionantemente pontual — o Augustus disse ao se sentar ao meu lado na sala de espera praticamente vazia em frente ao portão de embarque.
— Bem, ajuda o fato de eu não ser muito ocupada, tecnicamente falando — ela disse.
— Você é ocupada o suficiente — falei, embora me ocorresse que a ocupação da mamãe era basicamente eu.
Também tinha a função de esposa do meu pai. Ele não tinha a menor noção de coisas, tipo, tarefas bancárias, contratar bombeiros hidráulicos, cozinhar e qualquer outra atividade que não fosse trabalhar para a Morris Property, Inc. Mas a maior parte do tempo o negócio dela era comigo. A principal razão de viver dela e a minha principal razão de viver estavam terrivelmente enredadas.
Conforme os assentos da sala de espera foram sendo ocupados, o Augustus disse:
— Vou comprar um hambúrguer. Quer alguma coisa?
— Não — respondi —, mas admiro sua recusa em se submeter às convenções sociais do café da manhã.
Ele inclinou a cabeça para o lado e olhou para mim parecendo meio confuso.
— A Hazel está revoltada por causa da guetização dos ovos mexidos — mamãe explicou.
— É vergonhoso o fato de nós simplesmente passarmos a vida inteira aceitando cegamente a associação dos ovos mexidos com o período da manhã.
— Quero conversar mais sobre isso — o Augustus disse. — Mas estou morrendo de fome. Volto já.
* * *
Quando já se haviam passado mais de vinte minutos e o Augustus ainda não tinha voltado, perguntei para a mamãe se ela achava que havia algo de errado, e ela só levantou os olhos da revista detestável que lia pelo tempo suficiente para dizer:
— Ele deve ter ido ao banheiro ou coisa assim, só isso.
Uma funcionária da companhia aérea andou até nós e trocou meu cilindro de oxigênio por outro, fornecido pela empresa. Fiquei sem graça de ter uma pessoa ajoelhada na minha frente, com todo mundo olhando, então enviei uma mensagem de texto para o Augustus enquanto durava aquele procedimento.
Ele não respondeu. Mamãe parecia despreocupada, mas eu já imaginava todos os tipos de contratempos que poriam fim à viagem para Amsterdã (prisão, acidente, colapso mental) e senti como se houvesse algo não necessariamente cancerígeno de errado com meu peito conforme os minutos foram se passando.
E, bem na hora que a moça que estava atrás do balcão anunciou que daria início ao embarque antecipado de quem pudesse precisar de um pouco mais de tempo para entrar, e todas as pessoas que aguardavam o voo se viraram diretamente para mim, vi o Augustus mancando apressado na nossa direção com um saco do McDonald’s na mão, a mochila jogada nas costas.
— Por onde você andou? — perguntei.
— A fila estava enorme, foi mal — ele disse, estendendo a mão para me ajudar a levantar.
Aceitei a ajuda, e seguimos lado a lado até o portão, para o embarque preferencial.
Senti que todos observavam nossos movimentos, imaginando o que haveria de errado conosco, e se aquilo nos mataria, e como minha mãe devia ser uma heroína e tudo mais. Essa, às vezes, era a pior parte do câncer: a evidência física da doença separa você das outras pessoas.
Éramos irreconciliavelmente diferentes, e isso nunca ficou tão óbvio como quando nós três andamos no avião vazio, a comissária de bordo nos recebendo com uma expressão compadecida e fazendo um gesto na direção da nossa fileira, que ficava bem mais no fundo. Sentei no meio da fila de três cadeiras com o Augustus no assento da janela e a mamãe no do corredor. Fiquei me sentindo meio sufocada pela presença da minha mãe, então obviamente me bandeei para o lado do Augustus. Estávamos logo atrás da asa do avião. Ele abriu o saco e desembrulhou o hambúrguer.
— Na verdade, a questão dos ovos — ele disse — é que a cafedamanhazação dá ao ovo mexido uma certa sacralidade. Você pode arranjar bacon ou cheddar em qualquer lugar e a qualquer momento, em tacos, sanduíches de café da manhã ou num queijo quente, mas ovos mexidos… eles são importantes.
— Ridículo — eu disse. As pessoas começavam a se acomodar no avião. Não queria olhar para elas, então virei o rosto, e isso significou encarar o Augustus.
— Só estou dizendo que talvez os ovos mexidos sejam guetizados, sim, mas também são especiais. Há um lugar certo e uma hora certa para eles, como para rezar.
— Você não poderia estar mais equivocado — falei. — Está se deixando influenciar pelos pensamentos bordados nas almofadas dos seus pais. Você está argumentando que uma coisa frágil e rara é bela só porque é frágil e rara. Mas isso é uma grande mentira, e você sabe disso.
— Você é uma pessoa difícil de se consolar — o Augustus disse.
— O consolo superficial não é um consolo verdadeiro — falei. — Você já foi uma flor rara e frágil. Você se lembra disso.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Você sabe como calar a minha boca, Hazel Grace.
— É meu privilégio e minha responsabilidade — retruquei. Antes que o contato visual entre nós fosse interrompido, ele falou:
— Por falar nisso, foi mal eu ter evitado a sala de espera para o embarque. A fila no McDonald’s não estava tão grande assim, na verdade; eu só… só não quis ficar sentado lá com todas aquelas pessoas olhando
para nós, e tal.
— Para mim, principalmente — falei. Era provável que ninguém desconfiasse de que o Gus já esteve doente algum dia, mas eu carregava a minha doença do lado de fora, o que foi, em parte, o motivo pelo qual me tornei uma pessoa caseira. — Augustus Waters, criatura famosa por seu carisma, fica constrangido ao se sentar ao lado de uma garota com um cilindro de oxigênio.
— Não é constrangimento — ele disse. — É que às vezes essas pessoas me irritam. E não quero ficar irritado hoje.
Um minuto depois, ele enfiou a mão no bolso e abriu a tampa do maço de cigarros.
Passados uns nove segundos, uma comissária de bordo loira correu até a nossa fila e disse:
— Senhor, não é permitido fumar neste avião. Nem em qualquer avião.
— Eu não fumo — ele explicou, o cigarro dançando na boca enquanto falava.
— Mas…
— É uma metáfora — expliquei. — Ele coloca a coisa que mata entre os dentes, mas não dá a ela o poder de completar o serviço.
A comissária ficou desconcertada só por um segundo.
— Bem, essa metáfora não será permitida no voo de hoje — ela disse.
O Gus assentiu com a cabeça e devolveu o cigarro ao maço.
* * *
Enfim taxiamos na pista e o piloto disse: Comissários, preparar para a decolagem, e foi então que duas enormes turbinas a jato deram sinal de vida e começamos a acelerar.
— Essa é a sensação de estar num carro com você — falei, e ele sorriu, mas continuou com o maxilar tensionado. Então perguntei:
— Você está bem? — Nós estávamos ganhando velocidade quando, de repente, a mão do Gus apertou o braço da cadeira. Ele arregalou os
olhos, eu coloquei a minha mão em cima da dele e repeti: — Você está bem? — Ele não disse nada, só olhou para mim com olhos esbugalhados. Por fim, perguntei: — Você tem medo de avião?
— Daqui a pouco eu respondo.
O nariz da aeronave embicou para o alto e decolamos. O Gus olhou pela janela, vendo o planeta encolher abaixo de nós, e foi então que senti a mão dele relaxar sob a minha. Ele olhou para mim, depois para a janela, e anunciou:
— Estamos voando.
— Você nunca viajou de avião antes?
Ele balançou a cabeça negativamente.
— OLHE! — exclamou, apontando para a janela.
— É — falei. — É, dá para ver. Parece que estamos num avião.
— NUNCA NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE SE VIU ALGO ASSIM — ele disse.
O entusiasmo do Gus era fofo. Não pude resistir e me inclinei para dar um beijo na bochecha dele.
— Só para você saber, eu estou bem aqui — mamãe disse. — Sentada do seu lado. Sua mãe. Que segurou sua mão quando você deu seus primeiros passos.
— É coisa de amigo — lembrei a ela, virando para beijá-la no rosto.
— Não pareceu tão de amigo assim — o Gus murmurou alto o suficiente para que eu pudesse ouvir.
Quando um Gus surpreso, empolgado e inocente emergiu do Augustus Maravilhoso e Adepto de Metáforas, não consegui resistir, literalmente.
* * *
Aquele foi um voo curto para Detroit, onde o carrinho elétrico foi ao nosso encontro quando desembarcamos e nos levou até o portão para Amsterdã. O segundo avião tinha telas de TV na parte de trás de cada encosto, e logo que ultrapassamos o topo das nuvens, o Augustus e eu sincronizamos o
momento de começar a ver TV para assistirmos à mesma comédia romântica, ao mesmo tempo, em nossas respectivas telas. Mas, mesmo tendo sincronizado perfeitamente a hora de apertar o play, o filme dele começou alguns segundos antes do meu. Assim, a cada cena engraçada, ele ria quando eu ainda estava ouvindo o início de qualquer que fosse a piada.
* * *
Mamãe tinha planejado dormirmos as várias horas que o voo ainda ia durar, para que, quando aterrissássemos às oito da manhã, já chegássemos na cidade prontos para aproveitá-la ao máximo, e tal. Então, quando o filme acabou, nós três tomamos comprimidos para dormir. Mamãe capotou depois de alguns segundos, mas o Augustus e eu ficamos acordados olhando pela janela por algum tempo. O dia estava claro, e mesmo que não desse para ver o sol se pondo, dava para perceber a reação do céu a esse movimento.
— Cara, isso é lindo — falei, mais para mim mesma.
— A luz do sol nascente forte demais em seus olhos que perecem — ele disse, citando o Uma aflição imperial.
— Mas ele não está nascendo — falei.
— Em algum lugar está — ele retrucou, e logo depois disse: — Observação: seria fantástico voar num avião ultrarrápido que conseguisse perseguir o nascer do sol em torno do planeta por um tempo.
— Além disso, eu viveria mais — falei, e ele me olhou de esguelha. — Você sabe, por causa da relatividade, e tal. — Ele ainda parecia confuso. — Nós envelhecemos mais devagar quando nos movemos mais depressa em comparação a quando estamos parados. Assim, neste exato momento, o tempo está passando mais devagar para nós do que para as pessoas no solo.
— Gatas de faculdade — ele falou. — Elas são inteligentes demais.
Revirei os olhos. Ele bateu o joelho (de verdade) no meu e eu reagi fazendo a mesma coisa.
— Está com sono? — perguntei.
— Nem um pouco.
— É — falei. — Eu também não.
Remédios para dormir e analgésicos não tinham em mim o mesmo efeito que em pessoas normais.
— Quer ver outro filme? — ele perguntou. — Eles têm um da Natalie Portman da fase Hazel dela.
— Quero ver alguma coisa que você não tenha visto ainda.
No fim, acabamos assistindo ao 300, um filme de guerra sobre trezentos espartanos que protegem Esparta de um exército invasor com, tipo, um bilhão de persas. O filme do Augustus começou de novo antes do meu e, depois de alguns minutos ouvindo ele dizer: ‚Droga!‛ ou ‚Finalizado!‛ toda vez que alguém era brutalmente assassinado, me inclinei sobre o apoio para o braço e encostei a cabeça no ombro dele para, de fato, assistirmos ao filme juntos em apenas uma das telas.
300 apresentava uma coleção respeitável de jovens sem camisa, musculosos e com óleo no corpo, e por isso não era particularmente difícil de ver, mas o que o filme mais mostrava era um monte de espadas empunhadas sem um propósito legítimo. Os corpos de persas e espartanos iam se acumulando e eu não consegui entender direito por que os persas eram tão do mal e os espartanos, tão do bem. ‚A contemporaneidade‛, citando o UAI, ‚se especializa no tipo de batalha no qual ninguém perde nada de valor, exceto, como se poderia argumentar, suas vidas.‛ E era isso o que acontecia com aqueles titãs em batalha.
Perto do fim do filme estavam quase todos mortos, e houve um momento insano em que os espartanos começam a empilhar os corpos para formar uma parede de cadáveres, que se transformou numa enorme barreira separando os persas do caminho para Esparta. Achei aquela carnificina um pouco gratuita, então desviei o olhar da tela por um segundo e perguntei ao Augustus:
— Quantas pessoas você acha que morreram?
Ele fez um gesto para eu calar a boca e disse:
— Shh. Shh. É agora que as coisas vão ficar interessantes.
Quando os persas atacaram precisaram escalar a parede da morte, e os espartanos conseguiram ocupar o topo da montanha de cadáveres. Conforme os corpos iam se acumulando, a parede de mártires se tornava ainda mais alta e, portanto, mais difícil de escalar. Todos brandiam as espadas/atiravam flechas e rios de sangue corriam montanha da morte abaixo etc.
Afastei a cabeça do ombro do Augustus por um instante para dar um tempo daquelas cenas sanguinárias e observei-o assistindo ao filme. Ele não pôde conter o sorriso bobo. Olhei para a minha tela de canto de olho e vi a montanha de corpos de persas e espartanos crescendo. Quando os persas finalmente derrotaram os espartanos, olhei para o Augustus de novo. Embora os bonzinhos tivessem acabado de perder a batalha, ele parecia completamente satisfeito. Eu me aconcheguei a ele de novo, mas mantive os olhos fechados até a guerra acabar.
Enquanto rolavam os créditos, ele tirou os fones de ouvido e disse:
— Foi mal, eu estava submerso na nobreza do sacrifício. O que você ia dizendo?
— Quantas pessoas acha que morreram?
— Tipo, quantas personagens fictícias morreram neste filme fictício? Não o suficiente — ele brincou.
— Não, quer dizer, tipo, desde sempre. Tipo, quantas pessoas você acha que já morreram até hoje?
— Por acaso, eu sei a resposta para essa pergunta — ele disse. — Há sete bilhões de pessoas vivas no mundo, e mais ou menos noventa e oito bilhões de mortos.
— Ah — falei.
Eu achava que porque o crescimento populacional tinha sido muito acelerado, houvesse mais pessoas vivas do que todos os mortos juntos.
— Há cerca de quatorze pessoas mortas para cada vivo — ele disse.
Os créditos continuaram rolando. Demorava muito para que todos os cadáveres fossem identificados, imagino. Minha cabeça ainda estava encostada no ombro dele.
— Pesquisei isso uns anos atrás — o Augustus continuou. — Eu
estava me perguntando se todo mundo poderia ser lembrado. Tipo, se nós nos organizássemos, e designássemos uma determinada quantidade de cadáveres para cada vivo, será que haveria pessoas vivas o suficiente para se lembrar de todos os mortos?
— E há?
— Claro. Qualquer um pode listar quatorze mortos. Mas nós somos uns pranteadores muito desorganizados, por isso acaba que muitas pessoas se lembram de Shakespeare e ninguém nem pensa na pessoa para quem ele escreveu o soneto cinquenta e cinco.
— É — falei.
Fiquei em silêncio por um minuto, e aí ele perguntou:
— Você quer ler ou alguma coisa assim?
Respondi que sim. Comecei a ler um poema chamado Uivo, de Allen Ginsberg, para minha aula de poesia, e o Gus pegou para reler o Uma aflição imperial.
Depois de um tempo, ele falou:
— É bom?
— O poema? — perguntei.
— É.
— É. É muito bom. Os caras nesse poema tomam mais drogas que eu. Como está o UAI?
— Ainda perfeito — ele respondeu. — Recite para mim.
— Esse não é bem o tipo de poesia para você ler em voz alta com a mãe dormindo ao lado. Tem, tipo, sodomia e pó de anjo — falei.
— Você acabou de mencionar dois dos meus passatempos favoritos — ele disse.
— Tá, então recite alguma outra coisa para mim.
— Humm — falei. — Eu não tenho mais nada.
— Que pena. Estou seco por uma poesia. Você sabe alguma de cor?
— ‚Sigamos então, tu e eu‛ — comecei, meio nervosa. — ‚Enquanto o poente, no céu se estende / Como um paciente anestesiado sobre a mesa.‛
— Mais devagar — ele pediu.
Eu fiquei com um pouco de vergonha, como quando contei a ele sobre o Uma aflição imperial.
— Ah, tá. Tá. ‚Sigamos por certas ruas quase ermas, / Através dos sussurrantes refúgios / De noites indormidas em hotéis baratos, / Ao lado de botequins onde a serragem / Às conchas das ostras se entrelaça: / Ruas que se alongam como um tedioso argumento / Cujo insidioso intento / É atrair-te a uma angustiante questão… / Oh, não perguntes: ‘Qual?’ / Sigamos a cumprir nossa visita.‛
— Estou apaixonado por você — ele disse, baixinho.
— Augustus — falei.
— Eu estou — ele disse, me encarando, e pude ver os cantos dos seus olhos se enrugando. — Estou apaixonado por você e não quero me negar o simples prazer de compartilhar algo verdadeiro. Estou apaixonado por você, e sei que o amor é apenas um grito no vácuo, e que o esquecimento é inevitável, e que estamos todos condenados ao fim, e que haverá um dia em que tudo o que fizemos voltará ao pó, e sei que o sol vai engolir a única Terra que podemos chamar de nossa, e eu estou apaixonado por você.
— Augustus — repeti, sem saber mais o que dizer.
Senti como se tudo estivesse crescendo dentro de mim, como se eu me afogasse numa alegria estranhamente dolorosa, mas não consegui dizer aquilo de volta. Não consegui falar nada. Só olhei para ele e deixei que olhasse para mim, até que ele assentiu, comprimiu os lábios, virou para o outro lado e encostou a cabeça na janela.
CAPÍTULO ONZE
cho que ele deve ter acabado dormindo. Eu peguei no sono, e acordei com o barulho do trem de pouso sendo baixado. Estava com um gosto horrível na boca, por isso tentei mantê-la fechada com medo de intoxicar o avião inteiro. Virei para o Augustus, que olhava pela janela, e enquanto mergulhávamos através de um bloco de nuvens baixas endireitei as costas para ver a Holanda. A terra parecia afundada no oceano, pequenos retângulos de verde rodeados de canais por todos os lados. Na verdade, nós aterrissamos numa pista paralela a um canal, como se houvesse duas delas: uma para nós e outra para as aves aquáticas.
Depois de pegar nossa bagagem e passar pela alfândega, nos amontoamos num táxi dirigido por um homem careca e rechonchudo que falava inglês perfeitamente — tipo, melhor que eu.
— Hotel Filosoof? — falei.
E ele perguntou:
— Vocês são americanos?
— Sim — mamãe respondeu. — Somos de Indiana.
— Indiana — ele falou. — Eles roubam a terra dos índios e deixam o nome, é?
— Mais ou menos isso — mamãe respondeu.
O taxista se embrenhou pelo tráfego e seguimos em direção a uma estrada que continha várias placas azuis com palavras de vogais dobradas: Oosthuizen, Haarlem. Ao lado, uma planície desocupada se estendia por vários quilômetros, interrompida por uma ou outra sede gigantesca de alguma empresa. Resumindo, a Holanda se parecia com Indianápolis, só que com carros menores.
— Isso aqui é Amsterdã? — perguntei ao motorista de táxi.
— Sim e não — ele respondeu. — Amsterdã é como os anéis de uma árvore: fica mais velha conforme você vai chegando perto do centro.
A
Aconteceu tudo de repente: saímos da estrada e vimos as casas geminadas da minha imaginação repousando precariamente sobre os canais, bicicletas onipresentes, e cafés anunciando: SALÃO DE FUMO. O táxi passou por cima de um canal e eu pude ver, do alto da ponte, várias casas flutuantes atracadas. Não se parecia em nada com os Estados Unidos da América. Parecia uma pintura antiga, só que real — tudo dolorosamente idílico à luz da manhã —, e eu pensei em como seria maravilhosamente estranho morar num lugar onde quase tudo havia sido construído por pessoas mortas.
— Essas casas são muito antigas? — perguntou minha mãe.
— Muitas das casas do canal datam da Idade de Ouro, o século dezessete — ele disse. — Nossa cidade tem uma história riquíssima, embora muitos turistas só queiram ver o Bairro da Luz Vermelha. — Ele fez uma pausa.
— Alguns turistas acham que Amsterdã é a cidade do pecado, mas a verdade é que ela é a cidade da liberdade. E é na liberdade que a maioria das pessoas encontra o pecado.
* * *
Todos os quartos do Hotel Filosoof haviam sido batizados em homenagem a filósofos: mamãe e eu ficamos no térreo, no Kierkegaard; o Augustus estava um andar acima, no Heidegger. Nosso quarto era pequeno: uma cama de casal encostada numa das paredes com a minha máquina BiPAP, um concentrador de oxigênio e vários cilindros recarregáveis ao pé da cama. Passado o equipamento, havia uma cadeira Paisley velha e empoeirada com o assento afundado, uma mesa e uma prateleira acima da cama contendo a coleção completa dos livros de Søren Kierkegaard. Na mesa encontramos uma cesta de vime cheia de presentes enviados pelos Gênios: tamancos de madeira, uma camiseta cor de laranja da Holanda, chocolates e vários outros itens.
O Filosoof ficava ao lado do Vondelpark, o parque mais famoso de Amsterdã. Mamãe quis sair para passear, mas eu estava supercansada,
então ela colocou o BiPAP para funcionar e ajeitou a máscara em mim. Eu odiava falar com aquela coisa no nariz, mas:
— Vá passear no parque que eu ligo para você quando acordar.
— Está bem — ela disse. — Durma bem, querida.
* * *
Mas, quando acordei algumas horas depois, ela estava sentada na velha cadeira no canto, lendo um guia turístico.
— Bom dia — eu disse.
— Na verdade, é fim de tarde — ela comentou, levantando da cadeira com um suspiro. Andou até a cama, colocou um cilindro no carrinho e o conectou ao tubo enquanto eu tirava a máscara do BiPAP do rosto e inseria o cateter no nariz. Ela programou o cilindro para 2,5 litros por minuto, seis horas até que eu precisasse que ele fosse trocado, e só aí levantei. — Como está se sentindo? — ela perguntou.
— Bem — respondi. — Ótima. Como foi lá no Vondelpark?
— Não cheguei a ir — respondeu. — Mas li tudo sobre ele no guia turístico.
— Mãe — falei —, você não precisava ter ficado aqui. Ela deu de ombros.
— Sei disso. Mas eu quis ficar. Gosto de ver você dormindo.
— Disse a criatura maníaco-obsessiva. — Ela riu, mas ainda assim me senti mal. — Só quero que você se divirta, sabe?
— Está bem. Vou me divertir hoje à noite, combinado? Vou cometer loucuras por aí enquanto você e o Augustus saem para jantar.
— Sem você? — perguntei.
— É. Sem mim. Para falar a verdade, vocês já têm uma reserva num lugar chamado Oranjee — ela disse. — A assistente do Sr. Van Houten organizou tudo. O restaurante fica num bairro chamado Jordaan. Muito chique, segundo o guia turístico. Há uma estação de bonde logo depois da curva. O Augustus tem as instruções de como chegar lá. Vocês podem comer ao ar livre e ver os barcos passando. Vai ser um programa adorável.
Bastante romântico.
— Mãe.
— Só estou falando — ela disse. — Você deveria se arrumar. O vestido de alcinha, talvez?
A insanidade daquela situação seria de deixar qualquer um embasbacado: a mãe manda a filha de dezesseis anos sozinha com um garoto de dezessete para um programa numa cidade estrangeira famosa por sua permissividade. Mas isso, também, era um efeito colateral de se estar morrendo: eu não podia correr nem dançar nem comer alimentos ricos em nitrogênio, mas na cidade da liberdade eu estava entre os residentes mais liberados de lá. Usei mesmo o vestido de alcinha — um modelo azul com estampa floral e que ia até o joelho, da Forever 21 — com meia-calça e sapatos boneca, porque eu gostava de ser bem mais baixa que ele. Entrei no banheiro ridiculamente pequeno e lutei com meus cabelos despenteados durante algum tempo até que tudo parecesse o mais próximo possível com a Natalie Portman de 2005, 2006. Às seis da tarde em ponto (meio-dia em casa), houve uma batida à porta.
— Oi? — eu disse, sem abrir. Não havia olho-mágico no Hotel Filosoof.
— O.k. — respondeu o Augustus.
Pelo som da voz dele deu para perceber que estava com o cigarro na boca. Dei uma olhada em mim. O vestido de alcinha deixava à mostra muito mais do que o que o Augustus já tinha visto da minha caixa torácica e das minhas clavículas. Não era obsceno nem nada, mas era o mais perto que eu havia chegado de mostrar a pele na minha vida inteira.
(Minha mãe tinha um lema com o qual eu concordava: ‚Lancaster que é Lancaster não anda por aí de barriga de fora.‛)
Abri a porta. O Augustus estava de terno preto, as lapelas estreitas, o caimento perfeito, com uma camisa social azul-clara e uma gravata-borboleta fina. O cigarro pendia do canto da boca.
— Hazel Grace — ele disse —, você está linda.
— Eu — falei. Fiquei achando que o resto da frase surgiria só por ter ar passando pelas minhas cordas vocais, mas nada aconteceu. Por fim,
acabei dizendo: — Estou me sentindo malvestida.
— Ah, essa coisa velha? — ele falou, sorrindo para mim.
— Augustus — minha mãe disse atrás de mim —, você está extremamente bonito.
— Obrigado, senhora — ele disse, me oferecendo o braço.
Apoiei a mão nele e olhei para trás, para a mamãe.
— Vejo vocês às onze — ela disse.
Esperando pelo bonde número um numa larga avenida com tráfego intenso, falei para o Augustus:
— Esse é o terno que você usa em enterros?
— Na verdade, não — ele disse. — O outro não é nem de longe tão bonito.
O bonde azul e branco chegou e o Augustus entregou nossos cartões para o motorista, que explicou que precisávamos passá-los por cima de um sensor circular. Enquanto atravessávamos o bonde lotado, um senhor se levantou para podermos sentar juntos e eu tentei dizer para ele continuar sentado, mas o homem fez um gesto insistente em direção ao assento. Andamos de bonde por três paradas, eu me apoiando no Gus para que pudéssemos olhar pela janela ao mesmo tempo.
O Augustus apontou para o alto, para as árvores, e perguntou:
— Viu aquilo?
Eu vi. Havia olmos por todo lado pelos canais, e algumas sementes estavam sendo carregadas pelo vento. Mas não pareciam sementes. Pareciam, precisamente, pétalas de rosa descoloridas e em miniatura. Essas pétalas claras se juntavam no vento como pássaros voando em bando — milhares deles, como uma tempestade de neve na primavera.
O senhor que nos deu o lugar reparou que estávamos observando aquilo e disse, em inglês:
— É primavera em Amsterdã. Os iepen jogam confete para dar as boas-vindas à primavera. Trocamos de bonde e depois de quatro outras paradas chegamos a uma rua dividida por um lindo canal, os reflexos da antiga ponte e das pitorescas casas do canal ondulando na água.
O Oranjee ficava a alguns passos. O restaurante era num lado da rua
e as mesas ao ar livre, no outro, em cima de uma extensão de concreto bem à margem do canal. Os olhos da recepcionista brilharam quando o Augustus e eu andamos na direção dela.
— Sr. e Sra. Waters?
— Pois não? — falei.
— Sua mesa — ela disse, apontando para o outro lado da rua, para uma mesinha a alguns centímetros do canal. — O champanhe é cortesia da casa.
O Gus e eu nos entreolhamos, sorrindo. Depois que atravessamos, ele puxou a cadeira para mim e me ajudou a chegar para a frente com ela. De fato havia duas taças de champanhe na mesa coberta por uma toalha branca. O leve frescor no ar era magnificamente contrabalançado pelo calor da luz do sol; de um lado, ciclistas passavam pedalando — homens e mulheres bem-vestidos voltando do trabalho a caminho de casa, loiras inacreditavelmente atraentes sentadas de lado na garupa da bicicleta de alguma amiga, crianças bem pequenas de capacete sacolejando em cadeirinhas de plástico atrás de seus pais. E, do outro lado, a água do canal saturada pelos milhões de sementes-confete. Pequenos barcos estavam atracados aos muros de tijolos, com água da chuva até a metade, alguns quase naufragando. Um pouco mais adiante dava para ver casas flutuantes em pontões e, no meio do canal, um barco com o fundo plano, todo aberto, repleto de espreguiçadeiras e com um aparelho de som portátil vinha na nossa direção. O Augustus ergueu a taça de champanhe. Ergui a minha, mesmo sem nunca ter bebido nada alcoólico — fora as vezes que dei umas bicadinhas na cerveja do meu pai.
— O.k. — ele disse.
— O.k. — falei, e fizemos tintim com as taças. Tomei um gole. As bolinhas se desmancharam na minha boca e viajaram em direção ao norte, para dentro da cabeça. Doce. Frisante. Delicioso.
— Isso é muito bom — falei. — Nunca tinha bebido champanhe.
Um jovem garçom, os cabelos loiros e ondulados, apareceu. Acho que era ainda mais alto que o Augustus.
— Vocês sabem o que Dom Pérignon disse depois de inventar o
champanhe? — ele perguntou com um sotaque delicioso.
— Não? — falei.
— Ele chamou os outros monges e disse: ‚Venham depressa! Estou bebendo estrelas.‛ Bem-vindos a Amsterdã. Vocês gostariam de olhar o cardápio ou preferem a sugestão do chef?
Olhei para o Augustus e ele, para mim.
— A sugestão do chef parece ótima, mas a Hazel é vegetariana.
Eu só havia falado disso com o Augustus uma vez, no dia em que nos conhecemos.
— Isso não é problema — disse o garçom.
— Beleza. E será que poderíamos tomar um pouco mais disso? — o Gus perguntou, falando do champanhe.
— Claro — respondeu nosso garçom. — Nós engarrafamos todas as estrelas esta noite, jovens amigos. Ai, esse confete! — ele falou e deu uma espanada de leve numa semente que havia pousado no meu ombro nu. — Há tempos não caíam tantos assim. Estão em todo lugar. Isso é muito irritante.
O garçom desapareceu. Ficamos olhando o confete caindo do céu, rolando pelo chão com a brisa e terminando no canal.
— É meio difícil de acreditar que alguém possa achar isso irritante — o Augustus disse depois de um tempo.
— As pessoas sempre acabam ficando insensíveis à beleza.
— Eu ainda não fiquei insensível a você — ele retrucou, sorrindo. Fiquei vermelha. — Obrigado por vir a Amsterdã.
— Obrigada por me deixar sequestrar seu desejo — falei.
— Obrigado por usar esse vestido que é, tipo, ‚uau‛.
Balancei a cabeça, tentando não sorrir. Eu não queria ser uma granada. Mas, para falar a verdade, ele sabia o que estava fazendo, não sabia? Era uma questão de escolha para ele também.
— Ei, como termina aquele poema? — ele perguntou.
— Hein?
— Aquele que você recitou para mim no avião.
— Ah, o ‚Prufrock‛? Acaba assim: ‚Tardamos nas câmaras do mar /
Junto às ondinas com sua grinalda de algas rubras e castanhas / Até sermos acordados por vozes humanas. E nos afogarmos.‛
O Augustus tirou um cigarro do maço e bateu com o filtro na mesa.
— Essas estúpidas vozes humanas sempre estragando tudo.
O garçom chegou com mais duas taças de champanhe e com o que chamou de ‚Aspargos brancos belgas com infusão de lavanda‛.
— Eu também nunca tinha bebido champanhe — o Gus disse depois que o garçom se afastou. — Caso você tenha ficado se perguntando isso, e tal. E também nunca tinha comido aspargos brancos.
Eu estava no meio da primeira garfada.
— É fantástico — garanti.
Ele deu uma garfada, engoliu.
— Céus. Se os aspargos tivessem sempre esse gosto eu também seria vegetariano.
Algumas pessoas num barco de madeira envernizada se aproximaram lá embaixo no canal. Uma delas, uma loira de cabelos cacheados, com uns trinta anos, talvez, ergueu seu copo de cerveja na nossa direção e gritou algo.
— Nós não falamos holandês — o Gus gritou para ela.
Uma das outras gritou uma tradução:
— O casal bonito é bonito.
* * *
A comida era tão boa que a cada prato nossa conversa recaía em mais exaltações fragmentadas daquela deliciosidade: ‚Eu quero que esse risoto de cenoura roxa se transforme numa pessoa para que eu possa levá-la até Las Vegas e me casar com ela.‛ ‚Sorbet de ervilha-de-cheiro, você é tão surpreendentemente magnífico.‛ Queria estar com mais fome.
Depois do nhoque de alho verde com folhas de mostarda vermelha, o garçom disse:
— A sobremesa já está a caminho. Gostariam de beber mais estrelas antes?
Balancei a cabeça negativamente. Duas taças eram o bastante para mim. O champanhe não era exceção à minha alta resistência a calmantes e analgésicos; eu estava alegre, mas não bêbada. E nem pretendia ficar. Noites como aquela não aconteciam com frequência, e eu queria me lembrar dela.
— Humm — falei depois que o garçom saiu, e o Augustus deu aquele sorriso torto, olhando para um lado do canal enquanto eu olhava para o outro.
Nós tínhamos muito o que ver, e por isso aquele silêncio não era estranho, de verdade, mas eu queria que tudo fosse perfeito. E era perfeito, acho, só que dava a impressão de que alguém tinha tentado encenar a Amsterdã da minha imaginação, o que tornou mais difícil esquecer que aquele jantar, assim como a viagem em si, eram um Privilégio do Câncer. Eu só queria que ficássemos conversando e rindo confortavelmente, como fazíamos no sofá lá em casa, mas alguma tensão permeava aquilo tudo.
— Não é o terno que eu uso em enterros — ele disse após alguns minutos. — Quando descobri que estava doente, eles me disseram que minha chance de cura era de oitenta e cinco por cento. Sei que essa é uma probabilidade favorável, mas não pude deixar de pensar que estava numa roleta-russa. Quer dizer, eu teria que passar o maior sufoco por um tempo, de seis meses a um ano, e perder minha perna, e, no fim, aquilo ainda assim poderia não funcionar, sabe?
— Sei — falei, mesmo não sabendo.
Não de verdade. Eu nunca fui outra coisa a não ser uma paciente terminal; todo o meu tratamento tinha como objetivo estender a minha vida, e não curar o câncer. O Falanxifor havia introduzido um grau de ambiguidade à história, mas eu era diferente do Augustus: meu capítulo final foi escrito no momento do diagnóstico. O Gus, como a maioria dos sobreviventes do câncer, vivia na incerteza.
— Certo — ele disse. — Então passei por todo um processo de querer estar preparado. Compramos um lote em Crown Hill, e eu fui lá um dia com meu pai e escolhi um local. Planejei todo o meu enterro e tudo mais,
e então, logo antes da cirurgia, perguntei a meus pais se poderia comprar um terno, tipo, um terno dos bons, só para o caso de eu bater as botas. No fim das contas, nunca tive oportunidade de usá-lo. Até hoje.
— Então este é o seu terno mortuário.
— Exatamente. Você não tem uma roupa para o seu enterro?
— Tenho — respondi. — É um vestido que comprei para o meu aniversário de quinze anos. Mas não uso esse vestido em encontros românticos.
Os olhos dele brilharam.
— Nós estamos num encontro romântico?
Olhei para o chão, envergonhada.
— Não force a barra.
* * *
Ambos estávamos totalmente satisfeitos, mas a sobremesa — um opulento e suculento cremeaux rodeado de maracujá — era boa demais para não provarmos pelo menos um pouquinho, então protelamos o pedido por um tempo, tentando ficar com fome de novo. O sol era uma criança pequena se recusando terminantemente a ir para a cama: já eram mais de oito e meia da noite e o céu ainda estava claro.
Do nada, o Augustus perguntou:
— Você acredita em vida após a morte?
— Eu acho que a eternidade é um conceito errôneo — respondi. Ele sorriu de um jeito afetado.
— Você é um conceito errôneo.
— Eu sei. E é por isso que estou sendo retirada da rotação.
— Isso não é engraçado — ele disse, olhando para a rua.
Duas meninas passaram numa bicicleta, uma sentada de lado em cima da roda traseira, de carona.
— Peraí — falei. — Eu só estava brincando.
— Não tem a menor graça para mim imaginar você sendo retirada da rotação — ele disse. — Agora, sério: e a vida após a morte?
— Não — falei, e depois me corrigi. — Bem, para falar a verdade, eu não diria um ‚não‛ tão categórico assim, talvez. E você?
— Eu acredito — ele disse, confiante. — Acredito, com certeza. Não num paraíso onde você anda de unicórnio, toca harpa e vive numa mansão feita de nuvem. Mas, sim, eu acredito em Algo com A maiúsculo. Sempre acreditei.
— Sério? — perguntei.
Aquilo me surpreendeu. Eu sempre relacionei a crença no paraíso com, sendo bem sincera, um tipo de limitação intelectual. Mas o Gus não era burro.
— É — ele respondeu baixinho. — Eu acredito naquela frase de Uma aflição imperial. ‚A luz do sol nascente forte demais em seus olhos que perecem.‛ Acho que o sol nascente é Deus, e a luz do sol é muito forte e os olhos dela estão perecendo, mas não estão perdidos. Eu não acredito que retornamos para assombrar ou consolar os vivos nem nada, mas acho que nos transformamos em alguma coisa.
— Mas você tem medo do esquecimento.
— Sim, eu tenho medo do esquecimento terreno. Mas, quer dizer, não quero parecer meu pai nem minha mãe falando, mas acredito que os seres humanos têm alma, e acredito na manutenção da alma. O medo do esquecimento é outra coisa, o medo de não ser capaz de dar a minha vida em troca de nada. Se você não vive uma vida a serviço de um bem maior, precisa pelo menos morrer uma morte a serviço de um bem maior, sabe? E eu tenho medo de não ter nem uma vida nem uma morte que signifique alguma coisa.
Eu balancei a cabeça.
— O que foi? — ele perguntou.
— A sua obsessão por, tipo, morrer por alguma coisa, ou por deixar para trás algum símbolo memorável do seu heroísmo, e tal. É estranho.
— Todo mundo quer ter uma vida extraordinária.
— Nem todo mundo — falei, sem conseguir disfarçar minha irritação.
— Ficou chateada?
— É só que — falei, mas não consegui terminar a frase. — Só que —
falei de novo. Entre nós dois, a luz de uma vela tremulava. — É muita maldade sua dizer que as únicas vidas que importam são aquelas vividas por alguma coisa ou mortas por alguma coisa. É muita maldade dizer uma coisa dessas para mim.
Por algum motivo me senti como uma criancinha, e dei uma colherada na sobremesa para fazer parecer que aquilo não tinha tanta importância assim.
— Foi mal — ele disse. — Não foi a minha intenção. Eu só estava pensando em mim mesmo.
— É, estava — falei.
Não dava para terminar de comer a sobremesa. Meu estômago estava cheio demais. Fiquei com medo de vomitar, na verdade, porque de vez em quando eu vomitava depois de comer. (Nada a ver com bulimia, só câncer.) Empurrei o prato de sobremesa na direção do Gus, mas ele sacudiu a cabeça.
— Foi mal — falou de novo, esticando o braço sobre a mesa para pegar a minha mão.
Deixei que ele a pegasse.
— Eu poderia ser pior, sabe?
— Como? — perguntei, em tom de desafio.
— Quer dizer, eu tenho uma frase escrita à mão acima da minha privada que diz: ‚Banhe-se Diariamente no Consolo das Palavras de Deus‛, Hazel. Eu poderia ser muito pior.
— Isso não parece nada higiênico — falei.
— Eu poderia ser pior.
— Você poderia ser pior. — Sorri.
Ele gostava mesmo de mim. Talvez eu fosse um pouco narcisista, e tal, mas quando percebi isso naquele momento no Oranjee, passei a gostar mais ainda dele.
Quando nosso garçom apareceu para levar os pratos de sobremesa, anunciou:
— Sua refeição foi paga pelo Sr. Peter Van Houten.
O Augustus sorriu.
— Esse tal de Peter Van Houten não é tão mau assim.
* * *
Andávamos pela margem do canal quando começou a escurecer. À distância de um quarteirão do Oranjee, paramos num banco de praça rodeado de bicicletas velhas e enferrujadas presas com cadeado a racks e umas às outras. Nós nos sentamos lado a lado, os quadris encostados, de frente para o canal, e ele colocou o braço nos meus ombros.
Dava para ver a luminosidade vinda do Bairro da Luz Vermelha. Mesmo sendo o Bairro da Luz Vermelha, o brilho que vinha de lá tinha um misterioso tom de verde. Imaginei milhares de turistas se embebedando, se drogando e passando de mão em mão por aquelas ruas estreitas.
— Nem acredito que ele vai nos contar tudo amanhã — falei. — Peter Van Houten vai nos contar o famoso fim não publicado do melhor livro do mundo.
— Além de ter pago o nosso jantar — o Augustus disse.
— Fico fantasiando que ele vai nos revistar à procura de gravadores antes de nos contar. E aí vai se sentar no meio de nós no sofá da sala de estar dele e sussurrar a resposta para a pergunta que fiz sobre a mãe da Anna ter se casado ou não com o Homem das Tulipas Holandês.
— Não se esqueça do Sísifo, o hamster — o Augusto acrescentou.
— Certo, e também, é claro, sobre que destino aguardou Sísifo, o hamster. — Eu me inclinei para a frente, para olhar a água do canal. Havia uma quantidade exagerada daquelas pétalas de olmo desbotadas. — Uma continuação que só vai existir para nós — falei.
— Qual é o seu palpite? — ele perguntou.
— Não sei. De verdade. Já pensei nisso tudo, de trás para a frente e da frente para trás, umas mil vezes. Cada vez que releio o livro, penso diferente, sabe?
Ele assentiu com a cabeça.
— Você tem uma teoria? — perguntei.
— Tenho. Eu não acho que o Homem das Tulipas Holandês seja
vigarista, mas também não é rico como as faz acreditar. E acho que depois que a Anna morre, a mãe vai para a Holanda com ele pensando que vão morar lá para sempre, mas não dá certo, porque ela quer ficar perto de onde a filha viveu.
Eu não tinha me dado conta de que ele pensava tanto assim no livro, que o Gus se importava com o Uma aflição imperial independentemente de se importar comigo.
A água banhava silenciosa os muros de pedra do canal abaixo de nós; um grupo de amigos passou em bando, de bicicleta, gritando uns para os outros num holandês gutural e acelerado; os barquinhos, pouco maiores que eu, estavam metade submersos no canal; o cheiro de água muito parada por muito tempo; o braço dele me puxando para perto; a perna de verdade dele encostando na minha perna de verdade do quadril até o pé. Cheguei um pouco mais perto do corpo dele. Ele se retraiu.
— Foi mal. Você está bem?
Ele murmurou um sim em resposta, claramente sentindo alguma dor.
— Foi mal — falei de novo. — Ombro ossudo.
— Está tudo bem — ele disse. — Lindo, na verdade.
Ficamos sentados ali por um bom tempo. A mão dele acabou abandonando meu ombro e pousou no encosto do banco de praça. Basicamente nós só olhávamos fixamente para o canal. Eu estava pensando bastante a respeito de como tinham feito aquele lugar existir mesmo devendo estar submerso, e em como eu era, para a Dra. Maria, um tipo de Amsterdã, uma anomalia parcialmente submersa, e aquilo me fez pensar na morte.
— Posso fazer uma pergunta sobre a Caroline Mathers?
— E você ainda diz que não existe vida após a morte — ele respondeu sem olhar para mim. — Mas pode, claro. O que você quer saber?
Eu queria saber se ele ficaria bem se eu morresse. Queria não ser uma granada, não ser uma força malévola nas vidas das pessoas que eu amava.
— Só, tipo, o que aconteceu.
Ele suspirou, soltando o ar por tanto tempo que, para os meus pulmões de araque, parecia que ele estava se gabando. E colocou um
cigarro novo na boca.
— Você sabe que não há no mundo lugar menos frequentado que o playground de um hospital, não sabe?
Eu fiz que sim com a cabeça.
— Bem, eu passei algumas semanas no Memorial quando eles amputaram a minha perna, e tal. Fiquei internado no quinto andar e meu quarto dava vista para o playground, que obviamente ficava sempre em total abandono. Eu estava submerso na ressonância metafórica do playground vazio no pátio do hospital. Mas aí uma garota começou a aparecer todos os dias ali, sozinha. Sentava no balanço e se balançava, sem ninguém por perto, como numa cena de filme. Então eu pedi para uma das minhas enfermeiras mais legais me contar o que sabia sobre ela, e a mulher a levou lá em cima para uma visita, e era a Caroline, e eu usei o meu carisma imenso para conquistá-la.
O Gus fez uma pausa, então resolvi dizer alguma coisa.
— Você não é tão carismático assim.
Ele fez pouco caso, duvidando da veracidade do meu comentário.
— Você é basicamente só gato — expliquei.
Ele riu disso.
— O problema com os mortos — disse, e então parou. — O problema é que você acaba sendo considerado um crápula se não romantizar os mortos, mas a verdade é… complicada, acho. Tipo, você está familiarizada com a imagem da vítima de câncer estoica e determinada que luta heroicamente contra a doença com uma força sobre-humana e nunca reclama nem para de sorrir, nem mesmo em seus últimos instantes de vida, etcetera?
— Se estou — falei. — São aquelas almas bondosas e generosas cujos gestos são uma Inspiração para Todos Nós. Elas são tão fortes! Nós as admiramos tanto!
— Certo, mas na verdade, quer dizer, além de nós dois, obviamente, as crianças com câncer não são estatisticamente mais propensas a serem incríveis, nem compassivas, nem perseverantes, nem nada. A Caroline estava sempre de mau humor e infeliz, mas eu gostava daquilo. Gostava de
achar que a Caroline tinha me escolhido como a única pessoa no mundo que não ia odiar, e assim nós passávamos o tempo todo juntos tirando sarro com a cara dos outros, sabe? Zombando das enfermeiras, das outras crianças, das nossas famílias e de quem quer que fosse. Mas não sei se isso era ela ou o tumor. Quer dizer, uma das enfermeiras dela me disse, certa vez, que o tipo de tumor que a Caroline tinha é conhecido entre os médicos como o Tumor dos Imbecis, porque ele simplesmente transforma a pessoa num monstro. Então lá estava aquela menina sem um quinto do cérebro e que acabara de ter uma recorrência do Tumor dos Imbecis, e ela não era o protótipo do heroísmo estoico da criança com câncer. Ela era… Quer dizer, para ser honesto, ela era uma megera. Mas não dá para dizer isso, porque ela carregava aquele tumor e também porque ela está, quer dizer, ela está morta. Ela tinha vários motivos para ser desagradável, sabe?
Eu sabia.
— Você se lembra daquela parte do Uma aflição imperial quando a Anna está atravessando o campo de futebol para ir para a aula de educação física, e tal, e cai de cara na grama, e é assim que ela sabe que o câncer voltou e que está no seu sistema nervoso, e ela não consegue se levantar, e a cara dela está a, tipo, dois centímetros da grama do campo de futebol, e ela simplesmente fica ali imóvel olhando para a grama tão próxima, analisando a forma como a luz incide sobre ela e… Eu não me lembro direito da frase, mas é algo que diz que a Anna tem uma epifania whitmanesca e, com isso, define a humanidade como a oportunidade de se maravilhar com a grandiosidade da criação, e tal. Você se lembra dessa parte?
— Eu me lembro dessa parte — falei.
— Então, depois, quando eu estava sendo estripado pela quimioterapia, por algum motivo resolvi ficar esperançoso de verdade. Não quanto à sobrevivência, especificamente, mas eu me senti como a Anna se sente no livro, aquela sensação de empolgação e gratidão por simplesmente ser capaz de se maravilhar com tudo.
‚Mas, nesse meio tempo, a Caroline foi ficando pior a cada dia. Ela teve alta depois de um período e houve momentos em que achei que
poderíamos ter, tipo, um relacionamento normal, mas não podíamos, na verdade, porque ela não possuía qualquer mecanismo de filtragem entre pensamento e fala, o que era triste, desagradável e muitas vezes doloroso. Mas, quer dizer, não se pode terminar o namoro com uma menina que sofre de câncer cerebral. Os pais dela gostavam de mim, e ela tinha um irmão menor que é uma criança muito maneira. Quer dizer, como eu poderia terminar o namoro? Ela estava morrendo.
‚Demorou muito. Levou quase um ano, e foi um ano durante o qual eu convivi com uma garota que, tipo, do nada começava a rir, apontando para a minha prótese e me chamando de perneta.‛
— Não — falei.
— É. Quer dizer, era o tumor. Ele se alimentava do cérebro dela, sabe? Ou então não era o tumor. Não tenho como saber porque ela e o tumor não podiam ser desassociados. Mas conforme ela foi ficando mais doente, quer dizer, ela sempre repetia as mesmas histórias e ria dos próprios comentários, mesmo que já tivesse falado a mesma coisa umas cem vezes naquele dia. Tipo, ela repetiu a mesma brincadeira durante várias semanas: ‚O Gus tem pernas lindas. Quer dizer, perna.‛ E aí ria enlouquecidamente.
— Ah, Gus — falei. — Isso é…
Eu não sabia o que dizer. Ele não estava olhando para mim, e tive a sensação de que ia invadir sua privacidade se o encarasse. Senti o corpo dele chegar para a frente. O Gus tirou o cigarro da boca e olhou para ele, rolando-o com o polegar e o indicador, e então levou-o de volta à boca.
— Bem — ele disse —, para falar a verdade, eu tenho mesmo uma perna linda.
— Sinto muito — falei. — Sinto mesmo.
— Está tudo bem, Hazel Grace. Mas, só para esclarecer, quando eu achei que tinha visto o fantasma de Caroline Mathers no Grupo de Apoio, não fiquei de todo feliz. Eu estava encarando você, mas não estava ansioso por conhecê-la, se é que você me entende.
Ele tirou o maço do bolso e colocou o cigarro de volta lá dentro.
— Sinto muito — falei de novo.
— Eu também — ele disse.
— Não quero nunca fazer uma coisa dessas com você — falei para ele.
— Ah, eu não ia me importar, Hazel Grace. Seria uma honra ter o coração partido por você.