— Espere um instante — ele murmurou para mim, andou até onde
o Isaac estava e o agarrou pelos ombros. — Cara, travesseiros não quebram.
Tente alguma coisa que quebre.
O Isaac pegou um troféu de basquete da prateleira acima da
cama e o segurou no alto da cabeça, como se esperasse uma permissão. — Isso — o
Augustus disse.
— Isso! — O troféu se espatifou no chão, o braço de plástico
do jogador de basquete separado do corpo, ainda segurando a bola. O Isaac
começou a pisotear o troféu. — Isso! — disse o Augustus. — Acabe com ele! — E,
se virando para mim: — Já faz algum tempo que venho procurando uma forma de
dizer ao meu pai que, na verdade, eu meio que odeio basquete, e acho que
encontrei.
Os troféus vieram todos abaixo, um a um, e o Isaac pulava
neles e gritava enquanto o Augustus e eu mantínhamos uma certa distância, as
testemunhas daquela insanidade. Corpos mutilados de jogadores de basquete de
plástico lotaram o chão acarpetado: num canto, uma bola sendo espalmada por uma
mão sem corpo; no outro, duas pernas sem tronco no meio de um salto. O Isaac
continuou atacando os troféus,
pulando neles com os dois pés, gritando, ofegante, suado,
até que, por fim, cansou e caiu em cima dos destroços.
O Augustus deu um passo na direção dele e olhou para baixo.
— Está se sentindo melhor? — perguntou.
— Não — murmurou o Isaac, o peito inflando por causa da
respiração ofegante.
— Esse é o problema da dor — o Augustus disse, e aí olhou
para mim.
— Ela precisa ser sentida.
CAPÍTULO CINCO
epois disso, fiquei sem falar com o Augustus mais ou menos
uma semana. Liguei para ele na Noite dos Troféus Destroçados e, como manda a
tradição, agora era a vez dele de me ligar. Mas não ligou. Não que eu estivesse
com o celular na mão suada o dia inteiro, olhando para o aparelho, usando meu
Vestido Amarelo Especial, esperando pacientemente que meu cavalheiro fizesse
jus à sua alcunha. Segui a vida normalmente: encontrei com a Kaitlyn e com seu
(bonitinho mas francamente nada augustiniano) namorado para tomar um café numa
tarde dessas; tomei a dose diária recomendada de Falanxifor; assisti às aulas
em três manhãs no MCC, e todas as noites sentei à mesa para jantar com minha
mãe e meu pai.
Domingo à noite, comemos pizza com pimentão verde e
brócolis. Estávamos sentados em volta da nossa pequena mesa redonda na cozinha
quando meu celular começou a tocar, mas eu não podia nem colocar a mão nele
pois nós seguimos uma regra rígida de nada-de-telefone-na-hora-do-jantar.
Então comi um pouco enquanto mamãe e papai conversavam sobre
um terremoto que tinha acabado de acontecer em Papua-Nova Guiné. Eles se
conheceram no Corpo da Paz em Papua-Nova Guiné, por isso, sempre que alguma
coisa acontecia por lá, mesmo sendo algo terrível, era como se, de repente,
eles não fossem mais duas criaturas gordas e sedentárias, mas sim os jovens,
idealistas, independentes e radicais que foram um dia. O êxtase deles era tão
grande que nem sequer olharam para mim enquanto eu comia mais rápido que nunca,
passando a comida do prato para a boca com uma velocidade e uma ferocidade que
me fizeram até ficar um pouco sem fôlego, o que obviamente me deixou com medo
de meus pulmões estarem de novo nadando numa piscina cheia de líquido. Tentei
ao máximo afastar esse pensamento. Eu tinha uma tomografia
D
agendada para dali a duas semanas. Se algo estivesse errado,
eu saberia logo. Não adiantava nada começar a me preocupar naquela hora.
Mas, mesmo assim, eu me preocupava. Gostava de ser uma
pessoa. E queria continuar sendo. A preocupação também é outro efeito colateral
de se estar morrendo.
Por fim, acabei de comer e disse:
‚Vocês me dão licença?‛
Mas eles não fizeram sequer uma pausa na conversa que
estavam tendo sobre o que funcionava e o que não funcionava na infraestrutura
guineana. Peguei o celular na bolsa, que estava na bancada da cozinha, e
conferi as chamadas recentes. Augustus Waters.
Saí pela porta dos fundos, em meio ao crepúsculo. Avistei o
balanço, e pensei em andar até lá e me balançar enquanto falava com ele, mas a
distância parecia muito grande levando em conta o fato de que comer já tinha me
deixado cansada.
Em vez disso, deitei na grama junto à varanda, olhei para
Órion, a única constelação que eu conseguia reconhecer, e liguei para ele.
— Hazel Grace — ele disse.
— Oi — falei. — Tudo bem?
— Maravilha — respondeu. — Tenho sentido vontade de ligar
para você quase de minuto em minuto, mas estava esperando conseguir elaborar um
pensamento coerente em ref. a Uma aflição imperial. (Ele disse ‚em ref.‛. Sem
brincadeira. Aquele cara.)
— E? — perguntei.
— Acho que ele é, tipo. Ao ler esse livro, eu fico sentindo
como se, se…
— Como se? — questionei, de provocação.
— Como se fosse um presente? — ele completou, num tom
interrogativo. — Como se você tivesse me dado uma coisa importante.
— Ah — falei baixinho.
— Isso é brega — ele disse. — Foi mal.
— Não — falei. — Não. Não precisa se desculpar. — Mas o
livro não termina.
— É — concordei.
— Tortura. Eu entendi totalmente, tipo, entendi que ela
morre ou sei lá o quê.
— Isso mesmo, foi o que eu deduzi — falei.
— E, tudo bem, é justo, mas existe um contrato silencioso
entre autor e leitor, e acho que o fato de ele não terminar a história do livro
meio que viola esse contrato.
— Não sei — ponderei, me colocando na defensiva por Peter
Van Houten. — De certa forma, esse é um dos motivos pelos quais eu gosto do
livro. Ele registra a morte com fidelidade. Você morre no meio da vida, no meio
de uma frase. Mas eu quero, ai, como eu quero saber o que acontece com os
outros. Foi isso o que perguntei a ele nas minhas cartas. Mas, sabe como é, ele
nunca respondeu...
— Tá. Você disse que ele vive recluso?
— Exatamente.
— Que é impossível de ser localizado?
— Exatamente.
— Totalmente inalcançável — o Augustus disse.
— Infelizmente, sim — falei.
— ‚Prezado Sr. Waters‛ — ele continuou. — ‚Escrevo para
agradecer sua correspondência eletrônica, recebida por intermédio da Srta.
Vliegenthart neste dia seis de abril, enviada dos Estados Unidos da América,
conquanto se possa dizer que a geografia ainda exista na nossa
contemporaneidade triunfantemente digitalizada.‛
— Augustus, que diabos é isso?
— Ele tem uma assistente — o Augustus disse. — Lidewij
Vliegenthart. Achei o contato dela. Mandei um e-mail para ela. Ela repassou a
mensagem para ele. Ele respondeu usando a conta dela.
— Tá, tá. Continue lendo.
— ‚Minha resposta está sendo escrita com tinta e papel na
tradição gloriosa de nossos ancestrais e, em seguida, transcrita pela Srta.
Vliegenthart numa série de 1s e 0s que viajam através da rede enfadonha que vem
iludindo nossa espécie nos últimos tempos, por isso peço perdão
por quaisquer erros ou omissões que disso possam resultar.
‚Dada a orgia de entretenimento à disposição dos jovens de
sua geração, fico grato por qualquer um, em qualquer lugar, que destine a
quantidade de horas necessárias para ler meu humilde livro. Mas me sinto
especialmente em dívida com sua pessoa, senhor, tanto por suas gentis palavras
a respeito de Uma aflição imperial quanto por se dar o trabalho de me dizer que
o livro, e aqui o cito ipsis litteris, ‘significou muito mesmo’ para o senhor.
‚Esse comentário, no entanto, leva-me a elucubrar: o que
quer dizer com significou? Dada a frivolidade derradeira de nossa luta pela
vida, terá algum valor a efêmera carga de significado que a arte nos empresta?
Ou o único valor estará em passarmos o tempo o mais confortavelmente possível?
O que uma história ficcional deveria pretender emular, Augustus? O soar de um
alarme? Um grito de guerra? Uma injeção de morfina? Obviamente, como todas as
interrogações do universo, esta linha de investigação inevitavelmente reduz-nos
a perguntar o que significa ser humano e — pegando emprestada uma frase dos
jovens angustiados de dezesseis anos que o senhor sem dúvida repudia — se há
algum sentido nisso tudo.
‚Temo que não haja, caro amigo, e que você receberia alentos
insuficientes em encontros ulteriores com minha composição literária. Porém,
respondendo a sua pergunta: não, não escrevi nada mais, nem escreverei. Não
creio que continuar a compartilhar meus pensamentos com os leitores irá
beneficiá-los, ou a mim. Obrigado, novamente, por seu generoso e-mail.
‚Atenciosamente, Peter Van Houten, por intermédio de Lidewij
Vliegenthart.‛
— Uau — falei. — Você está inventando isso?
— Hazel Grace, eu seria capaz, com minha capacidade
intelectual limitada, de escrever uma carta fingindo ser o Peter Van Houten,
com frases como ‚nossa contemporaneidade triunfantemente digitalizada‛?
— Não, não seria — admiti. — Você pode… você pode me passar
o endereço de e-mail?
— Claro — o Augustus respondeu, como se não fosse o melhor
presente do mundo.
* * *
Passei as duas horas que se seguiram escrevendo um e-mail
para o Peter Van Houten. Parecia piorar a cada vez que eu reescrevia, mas eu
não conseguia parar.
Prezado Sr. Peter Van Houten
(a/c Lidewij Vliegenthart),
Meu nome é Hazel Grace Lancaster. Meu amigo, Augustus
Waters, que leu Uma aflição imperial seguindo minha recomendação, acabou de
receber um e-mail do senhor desse endereço. Espero que não se importe pelo fato
de o Augustus ter compartilhado o e-mail comigo.
Sr. Van Houten, eu entendo, pelo conteúdo da sua mensagem
para o Augustus, que o senhor não planeja publicar outros livros. De certa
forma, estou desapontada, mas também aliviada: não vou precisar mais temer que
seu próximo livro não fique à altura da magnífica perfeição do primeiro. Como
sobrevivente, há três anos, de um câncer em estágio IV, posso dizer que o
senhor acertou todas as medidas no Uma aflição imperial. Ou pelo menos o senhor
acertou todas as minhas medidas. Seu livro tem um jeito de me dizer o que estou
sentindo antes mesmo de eu sentir, e já o li várias vezes.
No entanto, gostaria de saber se o senhor se importaria em
responder a algumas perguntas sobre o que acontece após o término do livro.
Entendo que acaba porque a Anna morre ou fica tão doente que não consegue mais
escrever, só que eu gostaria muito mesmo de saber o que acontece com a mãe da
Anna — se ela se casa com o Homem das Tulipas Holandês, se chega a ter outro
filho, se continua no endereço 917 W. Temple etc. Além disso, o Homem das
Tulipas Holandês é um vigarista ou ele as ama de verdade? O que acontece com os
amigos da Anna — em
especial a Claire e o Jake? Eles ficam juntos? E, para
concluir — imagino que este seja o tipo de pergunta profunda e significativa
que o senhor sempre esperou que seus leitores fizessem —, o que acontece com
Sísifo, o hamster? Essas questões vêm me atormentando há anos — e não sei
quanto tempo vou poder esperar pelas respostas.
Sei que não são perguntas literariamente importantes e que o
livro é cheio de perguntas literariamente importantes, mas gostaria muito mesmo
de saber.
E, é claro, se o senhor algum dia resolver escrever qualquer
outra coisa, mesmo que não queira publicar, eu adoraria ler. Para ser sincera,
eu leria até a sua lista de compras de supermercado.
Atenciosamente e com grande admiração,
Hazel Grace Lancaster (16 anos)
Assim que enviei a mensagem, liguei para o Augustus e nós
ficamos acordados até tarde falando do Uma aflição imperial, e li para ele o
poema da Emily Dickinson de onde o Van Houten tirou um dos versos que usou como
título, e ele disse que eu era ótima recitando poemas e que não fazia pausas
muito longas nas quebras dos versos, e aí ele me disse que o sexto livro da
série ‚O preço do alvorecer‛ — O sangue aprova —, começa com a citação de uma
parte de um poema. Ele demorou um pouco para achar o livro, mas por fim leu o
trecho para mim: ‚Dizer que sua vida acabou. O último beijo bem dado / Você deu
e está distante no passado.‛
— Nada mal — falei. — Mas pretensioso. Acho que o Max Mayhem
chamaria isso de ‚coisa de maricas‛.
— É, e sem dúvida diria isso com os dentes cerrados.
Caramba, como o Mayhem cerra os dentes nesses livros. Com certeza vai acabar
tendo distúrbio de ATM se sobreviver a todos os combates. — E, então, depois de
alguns segundos, o Gus perguntou: — Quando foi seu último beijo bem dado?
Parei para pensar. Meus beijos — todos pré-diagnóstico —
tinham sido meio sem jeito e muito babados, e, em algum nível, sempre tive a
sensação de que éramos crianças brincando de ser adultos.
Mas, obviamente, isso foi há muito tempo.
— Há muitos anos — respondi, por fim. — E você?
— Eu dei alguns beijos bem dados na minha ex-namorada,
Caroline Mathers.
— Há muitos anos?
— O último foi há menos de um ano.
— O que aconteceu?
— Durante o beijo?
— Não, com você e a Caroline.
— Ah — ele disse. E então, depois de alguns segundos: — A
Caroline não sofre mais de ‚pessoalidade‛.
— Ah — falei.
— É — ele disse.
— Sinto muito — completei.
Eu conheci várias pessoas que morreram, lógico. Mas nunca
namorei uma. Não conseguia nem imaginar isso, sério.
— Não é culpa sua, Hazel Grace. Somos todos apenas efeitos
colaterais, certo?
— Cracas no navio cargueiro da consciência — falei, citando
o UAI.
— O.k. — ele disse. — Preciso ir dormir. Já é quase uma
hora.
— O.k. — falei.
— O.k. — ele disse.
Eu ri e repeti:
— O.k.
Aí a linha ficou silenciosa, mas não completamente muda. Era
quase como se ele estivesse ali no meu quarto comigo, mas de um jeito ainda
melhor — como se eu não estivesse no meu quarto e ele, não no dele, mas, em vez
disso, estivéssemos juntos numa invisível e tênue terceira dimensão até onde só
podíamos ir pelo telefone.
— O.k. — ele disse, depois do que pareceu ser uma
eternidade. — Talvez o.k. venha a ser o nosso sempre.
— O.k. — falei.
E foi o Augustus quem desligou.
* * *
Peter Van Houten respondeu ao e-mail do Augustus quatro
horas depois, mas já se tinham passado dois dias e ele ainda não havia
respondido ao meu. O Augustus me garantiu que era porque minha mensagem era
melhor e exigia uma resposta mais elaborada, que o Van Houten estava ocupado
redigindo as respostas às minhas perguntas e que uma prosa genial demorava para
ser escrita. Mas, ainda sim, fiquei tensa.
Na quarta-feira, durante a aula de Poesia Norte-americana
para Leigos 101, recebi uma mensagem de texto do Augustus:
O Isaac saiu da cirurgia. Correu tudo bem. Ele está
oficialmente SEC.
SEC queria dizer ‚sem evidência de câncer‛.
Uma segunda mensagem de texto chegou alguns segundos depois.
Quer dizer, ele está cego. Então é ruim.
Naquela tarde, mamãe concordou em me emprestar o carro para
que eu pudesse ir até o Memorial visitar o Isaac.
Fui até o quarto dele no quinto andar, bati à porta mesmo
estando aberta e uma voz de mulher disse:
— Entre.
Era uma enfermeira que estava fazendo alguma coisa com as
ataduras nos olhos dele.
— Oi, Isaac — falei.
— Monica? — ele perguntou.
— Ah, não. Foi mal. Não. É a Hazel. A Hazel do Grupo de
Apoio? A Hazel da noite-dos-troféus-destroçados?
— Ah — ele disse. — Pois é. As pessoas ficam me dizendo que
os outros sentidos vão ficar mais aguçados para compensar, mas ISSO OBVIAMENTE
AINDA NÃO ACONTECEU. Oi, Hazel do Grupo de Apoio. Chegue mais perto para que eu
possa examinar seu rosto com as mãos e enxergar sua alma com mais profundidade
do que qualquer outro ser que tenha o dom da visão.
— Ele está brincando — disse a enfermeira.
— É — falei. — Deu para perceber.
Dei alguns passos na direção do leito. Puxei uma cadeira e
me sentei, pegando na mão dele.
— E aí? — falei.
— E aí? — ele disse.
E aí ficamos em silêncio um tempo.
— Como você está se sentindo? — perguntei.
— Bem — ele disse. — Não sei.
— O que você não sabe?
Olhei para a mão dele porque não queria encarar o rosto
vendado pelas ataduras. O Isaac roía as unhas, e pude ver que havia sangue nos
cantos de alguns dedos.
— Ela nem me visitou — ele comentou. — Tipo, nós ficamos
juntos um ano e dois meses. Um ano e dois meses é muito tempo. Cara, isso dói.
O Isaac soltou minha mão para tatear à procura da bombinha
que você pressiona para receber uma dose de analgésicos.
A enfermeira, ao terminar de trocar a atadura, deu um passo
atrás.
— Só faz um dia, Isaac — ela disse, o tom de voz meio
condescendente. — Você precisa de um tempo para se recuperar. E um ano e dois
meses não é tanto tempo assim, não num contexto maior. Você está só começando a
vida, rapaz. Você vai ver.
A enfermeira foi embora.
— Ela já saiu?
Eu fiz que sim com a cabeça, mas me dei conta de que ele não
pôde ver meu gesto.
— Saiu — falei.
— Eu vou ver? Sério? Ela disse isso de verdade?
— Qualidades de uma Boa Enfermeira: Liste — pedi.
— Primeira: não fazer trocadilhos com a deficiência alheia —
o Isaac começou.
— Segunda: tirar o sangue na primeira tentativa — continuei.
— Na moral, essa é megaimportante. Tipo, esse é meu braço ou
o alvo de um jogo de dardos? Terceira: não falar de um jeito condescendente.
— Como está passando, querido? — perguntei, fazendo cara de
nojo. — Vou enfiar uma agulha em você agora. Pode ser que doa um pouquinho.
— O queridinho da titia está dodoizinho? — ele continuou. E,
então, após alguns segundos:
— A maioria delas é legal, na verdade. Mas só o que eu quero
é sumir daqui.
— Daqui, tipo, do hospital?
— Daqui também — ele disse. E comprimiu os lábios. A dor era
visível. — Posso ser honesto? Eu penso muito mais na Monica que no meu olho.
Isso é loucura? É loucura.
— É um pouquinho — concordei.
— Mas eu acredito em amor verdadeiro, sabe? Não acho que
todo mundo possa continuar tendo dois olhos nem que possa evitar ficar doente,
e tal, mas todo mundo deveria ter um amor verdadeiro, que deveria durar pelo
menos até o fim da vida da pessoa.
— É — falei. — Às vezes eu queria que nada disso tivesse
acontecido. Nada de câncer. A fala dele foi ficando mais lenta. O analgésico
estava fazendo efeito.
— Sinto muito — falei.
— O Gus veio aqui mais cedo. Ele estava aqui quando eu
acordei. Matou aula. Ele… — A cabeça tombou um tiquinho para o lado. — Melhorou
— falou baixinho.
— A dor? — perguntei.
Ele fez que sim com a cabeça, bem de leve.
— Que bom — falei. E aí, como a egoísta que sou: — Você
estava
dizendo alguma coisa sobre o Gus?
Mas o Isaac já estava fora do ar.
Desci até a lojinha sem janelas do hospital e perguntei à
voluntária idosa sentada num banco atrás da caixa registradora qual flor tinha
o aroma mais marcante.
— Todas têm o mesmo cheiro. Elas recebem um jato de essência
aromatizante — ela respondeu.
— Sério?
— É. Eles borrifam isso nas flores.
Abri a porta de vidro do refrigerador de flores à esquerda
dela, cheirei algumas rosas e depois me inclinei sobre alguns cravos. Mesmo
cheiro. E megaforte. Os cravos eram mais baratos, então peguei uma dúzia dos
amarelos. Custaram quatorze dólares. Voltei para o quarto; a mãe do Isaac
estava lá, segurando a mão dele. Ela era jovem e muito bonita.
— Você é amiga do Isaac? — perguntou, o que soou para mim
como uma daquelas perguntas involuntariamente genéricas e irrespondíveis.
— Humm… é… Sou do Grupo de Apoio. As flores são para ele.
Ela as apanhou e pôs no colo.
— Você conhece a Monica? — perguntou.
Fiz que não com a cabeça.
— Bem, ele está dormindo — ela disse.
— É. Eu falei com ele alguns minutos atrás, quando estavam
trocando as ataduras, e tal.
— Fiquei chateada por ter de deixá-lo nesse momento, mas
precisei buscar o Graham na escola — ela disse.
— Correu tudo bem — falei. Ela balançou a cabeça
afirmativamente.
— Eu deveria deixá-lo dormir em paz.
Ela balançou de novo a cabeça. Eu saí.
* * *
Na manhã seguinte, acordei cedo e fui logo verificar meus
e-mails.
lidewij.vliegenthart@gmail.com tinha finalmente respondido.
Cara Srta. Lancaster,
Temo que sua fé tenha sido depositada no lugar errado — mas,
para falar a verdade, é isso o que geralmente acontece com a fé. Não posso
responder às suas perguntas, pelo menos não por escrito, porque redigir tais
respostas constituiria uma continuação de Uma aflição imperial, que a senhorita
poderia acabar publicando ou compartilhando na rede global que substituiu os
cérebros de sua geração. Poderíamos utilizar o telefone, mas, nesse caso, a
senhorita poderia acabar gravando a conversa. Não que eu não confie em você, é
claro, mas não confio em você. Ai de mim, cara Hazel, eu jamais poderia
responder a tais perguntas exceto pessoalmente, e você está aí, ao passo que eu
estou aqui.
Dito isso, devo confessar que o recebimento inesperado de
sua correspondência por intermédio da Srta. Vliegenthart me alegrou: que
maravilha saber que criei algo que lhe foi útil — embora esse livro pareça
estar tão distante de mim que sinto como se tivesse sido escrito por um homem
totalmente diferente.
(O autor daquele livro era, comparativamente falando, tão
sensível, tão frágil, tão otimista!)
Entretanto, se algum dia por acaso se encontrar em Amsterdã,
faça-me uma visita em seu tempo livre. Em geral, estou em casa. Eu até
permitiria que você espiasse minha lista de compras.
Atenciosamente,
Peter
Van Houten a/c Lidewij Vliegenthart
— O QUÊ?! — gritei bem alto. — QUE RAIO DE VIDA É ESSA?
Mamãe veio correndo.
— O que aconteceu?
— Nada — garanti a ela.
Ainda nervosa, mamãe se ajoelhou para verificar o Felipe e
se certificar de que estava condensando o oxigênio direito. Eu me imaginei
sentada num café ao ar livre num dia de sol com Peter Van Houten, ele
com os cotovelos apoiados na mesa, falando baixinho para que
ninguém mais ouvisse o depoimento do que aconteceu com os outros personagens.
Passei vários anos pensando naquilo. Ele disse que não poderia me contar exceto
pessoalmente, e aí me convidou para ir a Amsterdã. Expliquei tudo para minha
mãe e concluí com:
— Preciso ir.
— Hazel, eu te amo, e você sabe que eu realizaria todos os
seus desejos, mas nós não temos… não temos dinheiro para uma viagem
internacional, e a despesa que teríamos com o aluguel de equipamentos por lá…
meu amor, isso não é…
— É — falei, interrompendo a frase dela. Percebi o quão
absurdo tinha sido eu sequer considerar aquela possibilidade. — Não se
preocupe. — Mas ela parecia preocupada. — É tão importante assim para você? —
mamãe perguntou e se sentou, a mão na minha batata da perna.
— Seria simplesmente fantástico se eu fosse a única pessoa,
além dele, a saber o que acontece — admiti. — Seria fantástico mesmo — ela
comentou. — Vou falar com seu pai.
— Não. Não fale — eu disse. — Sério, por favor, não gaste
dinheiro com isso. Vou pensar em alguma coisa.
Passou pela minha cabeça o fato de eu ser o motivo pelo qual
meus pais estavam sempre sem dinheiro. Eu havia esgotado as economias da
família com as doses de Falanxifor, e mamãe não podia trabalhar porque tinha
assumido o cargo de Pairar Sobre Mim em expediente integral. Eu não queria
deixar os dois mais endividados ainda.
Disse à mamãe que eu queria ligar para o Augustus só para
que ela saísse do quarto, porque eu não conseguia suportar aquela cara triste
do tipo não-consigo-realizar-os-sonhos-da-minha-filha.
— Ai, meu Deus! — o Augustus disse. — Não acredito que eu
esteja a fim de uma garota com desejos tão clichês.
— Eu tinha treze anos — repeti, embora, é claro, só
conseguisse pensar no a fim, a fim, a fim, a fim, a fim. Eu estava lisonjeada
mas mudei imediatamente de assunto. — Você não deveria estar na escola ou coisa
assim?
— Matei aula para fazer companhia ao Isaac, mas ele está
dormindo, por isso fiquei aqui no saguão estudando geometria.
— E como andam as coisas por aí? — perguntei.
— Não dá para saber ao certo se o Isaac simplesmente não
está pronto para enfrentar a gravidade da deficiência dele ou se está mesmo se
importando mais com o fato de ter levado um fora da Monica, mas ele não fala de
outra coisa.
— É — eu disse. — Ele vai ficar no hospital por quanto
tempo?
— Alguns dias. Depois disso vai para uma clínica de
reabilitação ou coisa do gênero por um tempo, mas tem permissão para dormir em
casa.
— Que droga isso — eu disse.
— A mãe dele está vindo. Tenho que ir.
— O.k.
— O.k. — ele respondeu, e pude ouvir o sorriso torto em sua
voz.
* * *
No sábado, meus pais e eu fomos à feira em Broad Ripple. O
dia estava ensolarado, o que é raro em Indiana no mês de abril, e todo mundo lá
na feira estava de manga curta, ainda que a temperatura não justificasse isso.
Nós, habitantes de Indiana — os famosos hoosiers —, somos excessivamente
otimistas com relação ao verão. Mamãe e eu nos sentamos num banco de frente
para um fabricante de sabonete de leite de cabra — um homem de macacão que
tinha de explicar a cada uma das pessoas que passava por ali que, sim, as
cabras eram dele e, não, sabonete de leite de cabra não cheira a cabra.
Meu celular tocou.
— Quem é? — Mamãe perguntou antes mesmo que eu olhasse para
o aparelho.
— Não sei — respondi, mas era o Gus.
— Você está em casa? — ele perguntou.
— Ah, não — eu disse.
— Essa era uma pergunta retórica. Eu já sabia a resposta
porque estou
na sua casa.
— Ah. Humm. Bem, nós estamos a caminho, acho.
— Beleza. Vejo você daqui a pouco.
* * *
Vimos o Augustus Waters sentado na escada quando embicamos
na entrada de carros. Ele segurava um buquê de tulipas cor de laranja prestes a
desabrochar e estava usando uma camiseta do Indiana Pacers por baixo do casaco,
uma escolha de indumentária que parecia totalmente despropositada, mas até que
caía bem nele. Ele fez força para se levantar, me entregou as tulipas e
perguntou:
— Vamos sair para um piquenique?
Eu fiz que sim com a cabeça, pegando as flores. Meu pai veio
por trás de mim e cumprimentou o Gus com um aperto de mão.
— Essa é a camiseta do Rik Smits? — perguntou.
— Essa mesma.
— Nossa, eu adorava esse cara — papai disse, e os dois
engrenaram imediatamente uma conversa sobre basquete da qual eu não tinha
condições de (e nem queria) participar, então levei minhas tulipas para dentro
de casa.
— Você quer que eu as coloque num vaso? — mamãe perguntou
assim que entrei, sorrindo de orelha a orelha.
— Não, obrigada — respondi.
Se colocássemos as tulipas num vaso na sala de estar, elas
seriam de todos. E eu queria que fossem só minhas.
Fui para o meu quarto mas não troquei de roupa. Penteei o
cabelo, escovei os dentes, coloquei brilho labial e a menor quantidade de
perfume possível, o tempo todo espiando as flores. Elas eram excessivamente
laranja, corriam até o risco de serem consideradas feias de tão laranja que
eram. Eu não tinha um vaso nem nada parecido, então tirei a escova de dente de
dentro do porta-escova de dente e o enchi até a metade com água, deixando as
flores lá no banheiro.
Quando voltei para o quarto ouvi vozes, então me sentei na
beira da cama por alguns instantes e fiquei escutando a conversa pela porta
entreaberta.
Papai: ‚Então você conheceu a Hazel no Grupo de Apoio.‛
Augustus: ‚Foi, sim, senhor. Sua casa é adorável. Gostei
muito das pinturas nas paredes.‛
Mamãe: ‚Obrigada, Augustus.‛
Papai: ‚Então, você também é um sobrevivente?‛
Augustus: ‚Sou. Não cortei fora essa camarada aqui pelo
simples prazer de fazer isso, embora seja uma estratégia de perda de peso
excelente. Pernas pesam!‛
Papai: ‚E como anda a saúde?‛
Augustus: ‚SEC. Há um ano e dois meses.‛
Mamãe: ‚Isso é maravilhoso. As opções de tratamento
disponíveis hoje… é realmente impressionante.‛
Augustus: ‚Eu sei. Tenho sorte.‛
Papai: ‚Você precisa entender que a Hazel ainda está doente,
Augustus, e que ficará assim para o resto da vida. Ela vai querer acompanhar
seu ritmo, mas os pulmões…‛
Foi quando apareci, e ele parou de falar.
— Então, aonde é que vocês vão? — mamãe perguntou.
O Augustus ficou em pé e aproximou a boca do ouvido dela,
sussurrando a resposta, e depois encostou o indicador nos lábios.
— Shh… — ele disse. — É segredo.
Mamãe sorriu.
— Você está levando o celular? — ela me perguntou.
Mostrei o aparelho para provar que estava, apoiei o carrinho
do oxigênio nas rodinhas da frente e comecei a andar. O Augustus se apressou
para me alcançar e me ofereceu o braço, que aceitei. Segurei no bíceps dele.
Infelizmente ele insistiu em dirigir, para que a surpresa pudesse continuar
sendo surpresa. Enquanto pulávamos aos trancos em direção ao nosso destino,
falei:
— Minha mãe ficou totalmente encantada com você.
— É, e seu pai é fã do Smits, o que ajuda muito. Você acha
que eles gostaram de mim?
— Com toda certeza. Mas, quem se importa? Eles são só pais.
— Eles são seus pais — o Augustus falou, olhando de relance
para mim. — Além disso, eu gosto de ser gostado. Isso é loucura?
— Bem, você não precisa sair correndo para abrir a porta
para mim ou me encher de elogios para que eu goste de você.
Ele pisou bruscamente no freio e eu voei para a frente com
tanta violência que meu fôlego ficou esquisito, quase o perdi. Pensei na
tomografia. Não se preocupe. Não adianta se preocupar. Mas me preocupei mesmo
assim. Fritamos o pneu dando uma arrancada quando o sinal abriu e viramos à
esquerda na erroneamente designada Avenida Bela Vista (ela dá vista para um
campo de golfe, mas não é nada bela). O único lugar que vinha à minha cabeça
naquela direção era o cemitério. O Augustus enfiou a mão no console, abriu um
maço cheio de cigarros e tirou um.
— Você nunca joga os cigarros fora? — perguntei.
— Um dos benefícios de não fumar é que os maços
duram para sempre — ele respondeu. — Já tenho esse aqui há quase um ano. Alguns
cigarros estão rachados perto do filtro, mas acho que esse maço consegue chegar
até meu aniversário de dezoito anos. — Ele segurou o filtro entre os dedos e o
colocou na boca.
— Então tá — falou.
— Tá. Liste as coisas que você nunca vê em Indianápolis.
— Humm. Adultos magros — falei.
Ele riu.
— Boa. Continue.
— Humm. Praias. Restaurantes que passam de pai para filho.
Relevo.
— Todos excelentes exemplos de coisas que faltam por aqui.
E, também, programas culturais.
— Ah, é. Nós ficamos um pouco a desejar no quesito programas
culturais — falei, deduzindo, enfim, aonde ele estaria me levando. — Estamos
indo ao museu?
— De certa forma.
— Ah, nós vamos àquele parque, e tal?
O Gus pareceu esvaziar.
— É. Nós vamos àquele parque, e tal — falou. — Você já
descobriu, não descobriu?
— Humm. Descobri o quê?
— Nada.
* * *
Havia um parque atrás do museu onde vários artistas fizeram
grandes esculturas. Já tinha ouvido falar dessa instalação, mas nunca a
visitara. Passamos de carro pela porta do museu e estacionamos perto de uma
quadra de basquete repleta de arcos de aço enormes, azuis e vermelhos, que
simulavam a trajetória de uma bola quicando. Andamos por um caminho que, para
os padrões de Indianápolis, é considerado uma ladeira, até chegar a uma
clareira onde crianças escalavam a escultura de um esqueleto de proporções gigantescas.
Os ossos iam mais ou menos até a altura da cintura e o fêmur era mais comprido
que eu. Parecia o desenho, feito por uma criança, de um esqueleto brotando do
chão.
Meu ombro doía. Fiquei com medo de o câncer ter se espalhado
para além dos pulmões. Imaginei meu tumor metastatizando para os ossos, abrindo
buracos no meu esqueleto, uma enguia rastejante com intenções perversas.
— ‚Ossos Maneiros‛ — o Augustus disse. — Criado por Joep Van
Lieshout.
— Parece holandês.
— E é — o Gus falou. — Assim como o Rik Smits. E as tulipas.
O Gus parou no meio da clareira com os ossos bem na nossa
frente e tirou a alça da mochila de um dos ombros, e depois do outro. Abriu o
fecho e tirou de lá uma toalha cor de laranja, uma garrafa de suco de laranja e
alguns sanduíches de pão de forma sem casca embalados em plástico filme.
— Qual é a desse laranja todo? — perguntei, ainda não
querendo me permitir imaginar que tudo aquilo levaria a Amsterdã.
— É a cor nacional da Holanda, obviamente. Você se lembra de
Guilherme I, o Príncipe de Orange, e tal?
— Ele não caiu no teste que fiz para conseguir o diploma do
ensino médio. — Sorri, tentando conter minha empolgação.
— Vai um sanduíche? — ele perguntou.
— Deixe eu adivinhar... — falei.
— Queijo holandês. E tomate. Os tomates vieram do México.
Foi mal.
— Você é sempre tão decepcionante, Augustus. Não podia pelo
menos ter comprado tomates cor de laranja?
Ele riu, e nós comemos os sanduíches em silêncio, vendo as
crianças brincando na escultura. Eu não podia simplesmente perguntar nada a
respeito daquilo, por isso só continuei sentada ali, rodeada de holandesidades,
meio constrangida, meio esperançosa.
A distância, banhado pela luz solar imaculada, tão rara e
preciosa em nossa cidade natal, um bando de crianças barulhentas fazia um esqueleto
de playground, pulando para a frente e para trás entre os ossos protéticos.
— Tem duas coisas que eu adoro nessa escultura — o Augustus
disse. Ele segurava o cigarro apagado entre os dedos, dando batidinhas nele
como se descartasse as cinzas. E o colocou de novo na boca. — Em primeiro
lugar, a distância entre os ossos é tal que, se você é criança, não consegue
resistir à tentação de pular entre eles. Tipo, você simplesmente tem que pular
da caixa torácica até o crânio. O que significa que, em segundo lugar, essa
escultura essencialmente força as crianças a brincar nos ossos. As ressonâncias
simbólicas são infinitas, Hazel Grace.
— Você gosta mesmo de símbolos — falei, na esperança de
conduzir a conversa de volta na direção dos muitos símbolos da Holanda
presentes em nosso piquenique.
— Certo. Por falar nisso, você deve estar se perguntando por
que está comendo um sanduíche de queijo ruim e bebendo suco de laranja, e por
que eu estou usando a camiseta de um holandês que praticava um esporte que eu
aprendi a odiar.
— É, isso passou pela minha cabeça — falei.
— Hazel Grace, como várias crianças já fizeram, e digo isso
com todo respeito, você gastou seu Desejo precipitadamente, sem se preocupar
muito com as consequências. O ceifador a encarava e o medo de morrer ainda
carregando o Desejo não concedido em seu bolso proverbial fez com que corresse
atrás do primeiro Desejo em que conseguiu pensar, e você, como tantos outros,
escolheu os prazeres inexpressivos e artificiais do parque temático.
— Na verdade, eu me diverti muito naquela viagem. Eu conheci
o Pateta e a Minn…
— Estou no meio de um monólogo! Eu escrevi isso e decorei, e
se você me interromper vou errar tudo — o Augustus me cortou. — Por favor,
continue comendo o sanduíche e prestando atenção. — (O sanduíche estava tão
seco que não dava nem para morder, mas eu sorri e tirei um pedaço mesmo assim.)
— Certo. Onde eu estava?
— Nos prazeres artificiais.
Ele guardou o cigarro no maço.
— Certo. Os prazeres inexpressivos e artificiais do parque
temático. Mas deixe-me ressaltar que os verdadeiros heróis da Fábrica de
Desejos são os jovens homens e mulheres que esperam, como Vladimir e Estragon
esperam Godot, e como boas moças cristãs esperam o casamento. Esses jovens
heróis esperam estoicamente, e sem reclamar, até que seu único e verdadeiro
Desejo venha até eles. É certo que talvez o Desejo nunca chegue, mas pelo menos
esses jovens podem descansar em paz em seu túmulo sabendo que fizeram sua parte
na preservação da integridade do Desejo como um ideal. Porém, pensando bem,
talvez seu Desejo vá se revelar, no fim das contas: talvez você perceba que seu
único e verdadeiro Desejo é visitar o genial Peter Van Houten em seu exílio
amsterdamês, e você ficará feliz, de fato, por ter poupado seu Desejo.
O Augustus fez uma pausa longa no discurso, o suficiente
para que eu percebesse que o monólogo tinha chegado ao fim.
— Mas eu não poupei o meu Desejo — falei.
— Ah — ele disse. E, então, após o que pareceu ser uma pausa
calculada, acrescentou: — Mas eu poupei o meu.
— Sério?
Fiquei surpresa com o fato de o Augustus ser elegível para
um Desejo, afinal de contas ele ainda estava estudando e a remissão do câncer
dele já durava mais de um ano. Era preciso estar muito doente para que os
Gênios lhe concedessem algo.
— Ganhei o meu em troca da perna — ele explicou. Um facho de
luz batia no rosto do Gus, de uma forma que o fazia apertar os olhos para me
olhar, o nariz enrugando de um jeito adorável. — Bem, eu não vou dar meu Desejo
para você nem nada. Mas também tenho interesse em conhecer o Peter Van Houten,
e não faria sentido conhecer o homem sem a menina que me apresentou ao livro
dele.
— Definitivamente não faria sentido — falei.
— Por isso conversei com os Gênios e eles concordaram em
gênero, número e grau. Disseram que Amsterdã fica linda no início de maio. E
sugeriram que viajássemos no dia três e voltássemos no dia sete.
— Augustus, isso é sério?
Ele estendeu o braço, tocou minha bochecha e, por um instante,
pensei que iria me beijar. Meu corpo todo ficou tenso, e acho que ele percebeu,
porque afastou a mão.
— Augustus — falei. — Sério. Você não precisa fazer isso.
— Claro que preciso — ele disse. — Eu encontrei o meu
Desejo.
— Cara, você é demais — falei para ele.
— Aposto que diz isso para todos os garotos que bancam
viagens internacionais para você — ele retrucou.
CAPÍTULO SEIS
uando cheguei à minha casa, mamãe estava dobrando minhas
roupas lavadas enquanto assistia a um programa de TV chamado The View. Contei
para ela que as tulipas, o artista holandês e todo o resto eram porque o
Augustus estava usando o Desejo dele para me levar a Amsterdã.
— Isso é um exagero — ela disse, balançando a cabeça
negativamente. — Não podemos aceitar algo assim de um garoto praticamente
desconhecido.
— Ele não é desconhecido. Ele é, tranquilamente, meu segundo
melhor amigo.
— Depois da Kaitlyn?
— Depois de você — eu disse.
Era verdade, mas falei aquilo mais porque queria ir a
Amsterdã.
— Vou consultar a médica — ela disse, depois de alguns
instantes.
* * *
A Dra. Maria disse que eu não poderia ir a Amsterdã sem a
companhia de um adulto que estivesse familiarizado com o meu caso, o que mais
ou menos queria dizer ou a minha mamãe ou a própria médica. (Meu pai entendia o
funcionamento do meu câncer da mesma forma que eu: do jeito vago e superficial
que as pessoas entendem como funcionam os circuitos elétricos e as marés. Mas
minha mãe sabia mais a respeito do carcinoma diferenciado de tireoide em
adolescentes que muitos oncologistas.)
— Então você vai comigo — falei. — Os Gênios vão bancar
tudo. Os Gênios são cheios da grana.
Q
— Mas seu pai… — ela disse. — Ele sentiria nossa falta. Não
seria justo com ele. Seu pai não pode se ausentar do trabalho.
— Tá brincando? Você não acha que o papai iria adorar passar
alguns dias vendo programas de TV que não envolvessem aspirantes a modelos,
pedindo pizza todas as noites e usando toalhas de papel como prato para não
precisar lavar a louça?
Mamãe riu. Até que enfim ela começou a se animar, e digitou
tarefas no celular: precisaria ligar para os pais do Gus e falar com os Gênios
sobre minhas necessidades médicas, e eles já reservaram o hotel?, e quais são
os melhores guias turísticos sobre Amsterdã?, e nós deveríamos fazer uma
pesquisa se só vamos passar três dias lá, e daí por diante. Eu estava com um
pouco de dor de cabeça, então engoli duas cápsulas de Advil e resolvi tirar um
cochilo.
Mas acabei ficando só deitada na cama, repassando na mente o
filme completo do piquenique com o Augustus. Não conseguia parar de pensar
naquele breve momento em que fiquei completamente tensa, quando ele me tocou.
Por algum motivo, aquele gesto suave e íntimo me pareceu errado. Achei que
talvez tivesse sido pelo jeito orquestrado como as coisas aconteceram: o
Augustus foi incrível, mas tinha exagerado em tudo no piquenique, culminando
nos sanduíches metaforicamente ressonantes, mas horrorosos, e no monólogo
memorizado que impedia um diálogo. O clima era todo Romântico, mas não romântico.
Mas a verdade é que eu nunca quis que ele me beijasse, não
do jeito que se espera que uma pessoa deseje essas coisas. Quer dizer, ele era
lindo. Eu me sentia atraída por ele. Pensava nele daquele jeito, pegando
emprestada uma expressão do vocabulário pré-adolescente. Mas o toque de
verdade, o toque realizado… parecia que estava tudo errado.
Aí comecei a ter medo de ter que ficar com ele para ir a
Amsterdã, o que não é o tipo de coisa que você quer ficar pensando, porque: (a)
o fato de eu querer beijar o Gus não deveria estar nem em questão, e (b) beijar
alguém para conseguir uma viagem de graça é algo perigosamente próximo da
prostituição total e irrestrita, e devo confessar que, embora eu não me
considerasse uma pessoa particularmente angelical, nunca pensei que meu
primeiro ato sexual seria prostitucional.
Mas, no fim das contas, ele não tinha tentado me beijar; ele
só encostou no meu rosto, o que não é nem nada sexual. Não foi um gesto
programado para provocar excitação, mas com certeza foi um movimento calculado,
porque o Augustus Waters não era de improvisar. Então qual era exatamente a
intenção dele? E por que eu resisti? Em algum momento, percebi que estava
Kaitlynizando o encontro, então resolvi mandar uma mensagem de texto para a
Kaitlyn e pedir um conselho. Ela me ligou imediatamente.
— Estou com um problema com um garoto — falei.
— DELÍCIA — Kaitlyn exclamou.
Contei tudo a ela, incluindo os detalhes do momento
constrangedor no qual ele tocou meu rosto, deixando de fora apenas Amsterdã e o
nome do Augustus.
— Tem certeza de que ele é um gato? — ela perguntou quando
terminei.
— Absoluta — respondi.
— Do tipo atlético?
— É. Ele jogava basquete na North Central.
— Uau. Como você conheceu ele?
— Naquele Grupo de Apoio medonho.
— Ahn — Kaitlyn falou. — Só por curiosidade, quantas pernas
esse cara tem?
— Tipo, uma inteira e um pedacinho da outra — respondi,
sorrindo.
Os jogadores de basquete eram famosos em Indiana, e ainda
que a Kaitlyn não frequentasse a North Central, sua capacidade de estabelecer conexões
sociais era infinita.
— Augustus Waters — ela disse.
— Talvez?
— Ai, meu Deus. Já vi o Augustus em festas. As coisas que eu
faria com aquele cara. Quer dizer, não agora que sei que está interessada nele.
Mas, meu Deus do céu, eu montaria naquele pônei perneta e daria uma volta
inteira no curral.
— Kaitlyn — falei.
— Foi mal. Você acha que precisaria ficar por cima?
— Kaitlyn — repeti.
— Sobre o que estávamos falando mesmo? Certo, você e o
Augustus Waters. Quem sabe… você é gay?
— Acho que não. Quer dizer, eu gosto dele.
— Ele tem mãos feias? Às vezes, pessoas bonitas têm mãos
feias.
— Não. As mãos dele são, tipo, incríveis.
— Humm — ela disse.
— Humm — falei.
Depois de um segundo, Kaitlyn prosseguiu:
— Você se lembra do Derek? Ele terminou comigo na semana
passada porque resolveu que no fundo havia algo fundamentalmente incompatível
entre nós e que acabaríamos nos magoando se continuássemos com o
relacionamento. Ele chamou aquilo de término preventivo do namoro. Então, pode
ser que você tenha algum pressentimento de que haja algo fundamentalmente
incompatível entre vocês e esteja prevenindo a prevenção.
— Humm — falei.
— Só estou pensando alto aqui.
— Sinto muito pelo Derek.
— Ah, eu já superei, amada. Foram necessários uma caixa de
cookies de chocolate com menta e quarenta minutos para esquecer aquele garoto.
Eu ri.
— Bem, obrigada, Kaitlyn.
— Na eventualidade de você ficar com ele, quero todos os
detalhes picantes.
— Mas é claro — eu disse, e aí a Kaitlyn me mandou um beijo
estalado e eu completei: — Tchau.
E ela desligou.
* * *
Enquanto escutava a Kaitlyn falando, me dei conta de que eu
não tinha um pressentimento de que iria magoá-lo. Eu tinha um ‚pós-sentimento‛.
Peguei o laptop e dei uma busca em Caroline Mathers. As
semelhanças físicas eram impressionantes: o mesmo rosto esteroidalmente
redondo, o mesmo nariz, aproximadamente a mesma compleição física. Mas os olhos
dela eram castanho-escuros (os meus são verdes) e a cor da pele dela era mais
morena, e tal.
Milhares de pessoas — literalmente milhares — tinham deixado
mensagens de condolências para ela. Era uma lista infinita de pessoas que
sentiam sua falta, tantas que levei uma hora clicando na barra lateral para
passar dos posts que diziam: É uma pena que você tenha morrido, até chegar aos
que confessavam: Estou rezando por você. Caroline tinha morrido havia um ano de
câncer cerebral. Consegui acessar algumas fotos dela. O Augustus estava em
várias das mais antigas: apontando para a cicatriz chanfrada que atravessava a
cabeça raspada dela e fazendo um sinal de positivo com o polegar da outra mão;
de braços dados com ela no playground do Hospital Memorial, de costas para a
câmera; beijando a Caroline enquanto ela segurava a câmera à frente deles, só deixando
à mostra seus narizes e os olhos fechados.
As fotos que tinham sido postadas mais recentemente eram
todas da Caroline de antes, quando ainda era saudável, carregadas para sua
página pelos amigos depois de sua morte: uma menina linda, os quadris largos e
curvilíneos, o cabelo liso e preto caindo no rosto. Minha versão saudável se
parecia muito pouco com a versão saudável dela. Mas nossas versões cancerosas
poderiam muito bem ter sido irmãs. Não me admira que ele tenha ficado me
olhando, vidrado, na primeira vez que me viu.
Cliquei várias vezes em um dos posts, escrito dois meses
atrás, nove depois de sua morte, por um dos amigos dela. Todos sentimos muito
sua falta. É uma dor que não passa. Parece que fomos todos feridos durante a
sua batalha, Caroline. Saudades. Te amo.
Depois de um tempo, mamãe e papai me chamaram para jantar.
Fechei o computador e me levantei, mas não consegui tirar aquele post da
cabeça, e por algum motivo ele me deixou nervosa e sem fome.
Fiquei pensando no ombro que doía e, além disso, a dor de
cabeça ainda não havia passado, mas talvez fosse só porque eu tinha ficado
pensando numa garota que morreu de câncer no cérebro. Comecei a tentar me
convencer a compartimentalizar, para me concentrar ali na mesa redonda (sem
dúvida de um diâmetro muito grande para três pessoas e definitivamente grande
demais para duas) com aquele brócolis empapado e um hambúrguer de feijão-preto
que nem todo o ketchup do mundo conseguiria tornar suculento. Falei para mim
mesma que imaginar uma metástase no cérebro ou no ombro não afetaria a
realidade invisível que estava rolando dentro mim, e que, portanto, tais
pensamentos eram instantes desperdiçados numa vida composta de um conjunto, por
definição, finito de tais instantes. Até cheguei a repetir mentalmente que eu
deveria viver o melhor da minha vida hoje.
Fiquei tentando entender durante horas e horas por que uma
coisa escrita por um total desconhecido na Internet para uma outra (e falecida)
desconhecida estava me incomodando tanto e me deixando com medo de que houvesse
algo no meu cérebro — que de fato doía, embora eu soubesse por anos de
experiência que a dor é um instrumento de diagnóstico obtuso e inespecífico.
E porque nenhum terremoto havia ocorrido em Papua-Nova Guiné
naquele dia, meus pais estavam hiperconcentrados em mim, com isso, não consegui
disfarçar a torrente de ansiedade.
— Está tudo bem? — mamãe me perguntou enquanto eu comia.
— A-hã — respondi. Dei uma mordida no hambúrguer. Engoli.
Tentei dizer algo que uma pessoa normal cujo cérebro não estivesse mergulhado
em pânico diria. — Tem brócolis nesses hambúrgueres?
— Um pouquinho — papai disse. — Legal isso de você talvez ir
a Amsterdã.
— É — falei.
Tentei tirar a palavra feridos da cabeça, o que, obviamente,
era uma forma de pensar nela.
— Hazel — mamãe disse. — Onde você está com a cabeça?
— Só estou pensando — falei.
— Está vendo coelhinhos na lua — meu pai disse, sorrindo.
— Eu não estou vendo coelhinho nenhum, não estou apaixonada
pelo Gus Waters nem por ninguém — respondi, defensivamente demais.
Feridos. Tipo, Caroline Mathers era uma bomba, e quando ela
explodiu todo mundo em volta foi atingido pelos estilhaços.
Papai me perguntou se eu estava fazendo algum trabalho para
a escola.
— Tenho um dever de casa de álgebra bastante complexo —
respondi.
— Tão complexo que eu não conseguiria de jeito nenhum
explicar para um leigo.
— E como está o seu amigo Isaac?
— Cego — respondi.
— Você está agindo como uma aborrecente hoje — mamãe disse,
e parecia incomodada com aquilo.
— Não é isso o que você queria, mãe? Que eu assumisse minha
adolescência?
— Bem, não era necessariamente desse tipo de adolescência
que eu estava falando, mas é claro que seu pai e eu estamos felizes em ver você
se tornando uma jovem mulher, fazendo amigos, namorando.
— Eu não estou namorando — falei. — Eu não quero namorar
ninguém. É uma péssima ideia e uma grande perda de tempo…
— Querida — minha mãe disse. — Qual é o problema?
— Eu sou tipo. Tipo. Sou tipo uma granada, mãe. Eu sou uma
granada e, em algum momento, vou explodir, e gostaria de diminuir a quantidade
de vítimas, tá? Meu pai inclinou a cabeça um pouquinho para o lado, como se
fosse um cachorrinho que acabou de ser repreendido. — Eu sou uma granada —
repeti. — Só quero ficar longe das pessoas, ler livros, pensar e ficar com
vocês dois, porque não há nada que eu possa fazer para não ferir vocês; vocês
estão envolvidos demais, por isso me deixem fazer isso, tá? Não estou
deprimida. Não preciso sair mais. E não posso ser uma adolescente normal porque
sou uma granada.
— Hazel — papai disse, e então ficou com um nó na garganta.
Ele chorava muito, meu pai.
— Vou para meu quarto ler um pouco, tá? Estou bem. Estou
bem, de verdade; só quero ir ler um pouco.
Comecei folheando o livro que me mandaram ler na escola, mas
nós morávamos numa casa de paredes extremamente finas e, por isso, pude ouvir a
maior parte da conversa sussurrada que se seguiu. Meu pai dizendo: ‚Isso acaba
comigo‛, e minha mãe falando: ‚Isso é tudo o que ela não precisa ouvir‛, e meu
pai continuando: ‚Sinto muito, mas…‛, e minha mãe retrucando: ‚Você não é
grato?‛, e ele respondendo: ‚Meu Deus, claro que sou grato‛. Fiquei tentando me
concentrar na história, mas não conseguia parar de prestar atenção nos dois.
Aí liguei o computador para ouvir um pouco de música, e com
o grupo preferido do Augustus, o The Hectic Glow, como trilha sonora, voltei
para as páginas de homenagens a Caroline Mathers, lendo sobre como sua luta foi
heroica, e como ela fazia falta, e como estava num lugar melhor, e como viveria
para sempre na memória deles, e como todos os que a conheceram — todos —
estavam arrasados por perdê-la.
Talvez o normal fosse eu odiar a Caroline Mathers, ou sei lá
o quê, por ter sido namorada do Augustus, mas eu não a odiava. Não dava para
distinguir claramente como ela era através daquelas homenagens, mas não parecia
haver muito o que odiar — ela parecia ter sido, acima de tudo, uma doente
profissional, como eu, o que me deixou com medo de que, quando eu morresse,
eles não tivessem mais nada a dizer sobre mim exceto que lutei heroicamente,
como se a única coisa que eu tivesse feito na vida fosse Ter Câncer.
De qualquer forma, depois de um tempo, comecei a ler as
pequenas atualizações sobre o estado da Caroline Mathers, que na maior parte
foram escritas por seus pais, na verdade, porque acho que o tumor cerebral dela
era do tipo que transforma você em outra pessoa antes de fazer você deixar de
ser uma pessoa.
Eram todos mais ou menos assim: Caroline continua a ter
problemas de comportamento. Ela está sentindo muita raiva e frustração por não
conseguir falar (nós também ficamos frustrados com isso, claro, mas temos
formas mais socialmente aceitáveis de lidar com a raiva). O Gus passou a
chamar a Caroline de HULK ESMAGA, o que repercutiu entre os
médicos. Nada é fácil nisso tudo para nenhum de nós, mas é preciso levar a vida
com algum humor, da melhor forma possível. Esperamos voltar para casa na
quinta-feira. Manteremos vocês informados…
Seria desnecessário dizer, mas ela não voltou para casa na
quinta-feira.
* * *
Então é claro que fiquei toda tensa quando ele me tocou.
Estar com o Augustus era feri-lo — inevitavelmente. E foi isso o que senti
quando ele estendeu o braço: senti como se estivesse cometendo um ato de
violência contra ele, porque era isso o que eu estava fazendo.
Resolvi mandar uma mensagem de texto. Quis evitar uma
conversa inteira a respeito.
Oi, então tá, eu não sei se você vai entender isso, mas não
posso beijar você nem nada. Não que você tenha necessariamente tido vontade de
fazer isso, mas não posso.
Quando tento olhar para você desse jeito, tudo o que vejo
são as coisas pelas quais vou fazer você passar. Isso talvez não faça sentido
para você.
De qualquer forma, sinto muito.
Ele respondeu alguns minutos depois.
O.k.
Mandei minha resposta.
O.k.
Ele respondeu:
Ai, meu Deus, pare de flertar comigo!
Eu só disse:
O.k.
Meu celular vibrou alguns instantes depois.
Eu estava brincando, Hazel Grace. Eu entendo. (Mas nós dois
sabemos que o.k. é uma expressão bastante ‚paquerativa‛. Ela está CARREGADA de
sensualidade.)
Fiquei bastante tentada a responder O.k. de novo, mas
imaginei a cena dele no meu enterro, e aquilo me ajudou a mandar a mensagem
certa.
Foi mal.
* * *
Tentei dormir com os fones ainda no ouvido, mas aí, depois
de um tempo, minha mãe e meu pai entraram no quarto, e mamãe pegou o Azulzinho
da prateleira e o abraçou, e papai se sentou na cadeira da minha escrivaninha
e, sem chorar, disse:
— Você não é uma granada. Não para nós. Pensar na sua morte
nos deixa tristes, Hazel, mas você não é uma granada. Você é incrível. Você não
tem como saber, querida, porque nunca teve um bebê que cresceu e se tornou uma
jovem leitora genial com um interesse incidental em programas de televisão
detestáveis, mas a alegria que você nos dá é muito maior que a tristeza que sentimos
com a sua doença.
— Tá — falei.
— Sério — meu pai disse. — Eu não mentiria para você sobre
esse assunto. Se você nos desse mais trabalho do que merece, simplesmente
jogaríamos você na rua.
— Não somos sentimentais — mamãe acrescentou, com uma expressão
impassível no rosto. — Teríamos deixado você num orfanato com um bilhete preso
em seu pijama.
Eu ri.
— Você não precisa ir ao Grupo de Apoio — ela continuou. —
Não precisa fazer nada. Só ir à escola. — E me entregou o urso.
— Acho que o Azulzinho pode dormir na prateleira hoje —
falei. — Você precisa lembrar que eu tenho mais de trinta e três meios anos.
— Fique com ele hoje.
— Mãe — falei.
— Ele está se sentindo solitário.
— Ai, meu Deus, mãe! — exclamei.
Mas peguei o raio do Azulzinho e meio que me aconcheguei a
ele enquanto adormecia.
Na verdade, eu ainda estava com um dos braços entrelaçados
com o urso quando acordei pouco depois das quatro da manhã com uma dor
apocalíptica latejando no centro inalcançável da minha cabeça.
CAPÍTULO SETE
ritei para acordar meus pais e eles entraram no quarto como
dois furacões, mas não havia nada que pudessem fazer para diminuir a
intensidade da supernova que explodia na minha cabeça, uma cadeia interminável
de fogos de artifício intracranianos que me fizeram pensar que minha hora tinha
chegado de vez, e tentei me convencer — como já tinha feito antes — de que o
corpo desliga quando a dor fica insuportável demais, que a consciência é
temporária e que tudo vai passar. Mas, como sempre, não desmaiei. Fui deixada
na areia com as ondas batendo em mim, sem poder me afogar.
Papai foi dirigindo enquanto falava com o hospital ao
celular, eu deitada no banco de trás com a cabeça apoiada no colo da minha mãe.
Não havia nada a fazer: gritar só piorava. Para falar a verdade, qualquer
estímulo só piorava.
A única solução seria tentar desmanchar o mundo, torná-lo
negro e silencioso e inabitado de novo, voltar ao momento anterior ao Big Bang,
no começo, quando havia o Verbo, e viver naquele espaço não criado e vazio
sozinha com o Verbo. As pessoas falam da coragem dos pacientes de câncer, e eu
não a nego. Por vários anos fui cutucada, cortada e envenenada, e segui em
frente. Mas não se enganem: naquele momento, eu teria ficado muito, muito feliz
em morrer.
* * *
Acordei na UTI. Pude perceber que era a UTI porque não
estava num quarto particular, e porque havia vários aparelhos bipando, e porque
eu estava sozinha: eles não deixam a família ficar na UTI do Hospital
Pediátrico vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana porque isso
G
representaria risco de infecção. Ouvi um choro vindo do fim
do corredor. O filho de alguém tinha morrido. Eu estava sozinha. Apertei o
botão vermelho para chamar alguém.
Uma enfermeira apareceu alguns segundos depois.
— Oi — falei.
— Oi, Hazel. Sou Alison, sua enfermeira — ela disse.
— Oi, Alison Minha Enfermeira — falei.
Depois disso comecei a me sentir muito cansada de novo. Mas
fiquei acordada por um tempo quando meus pais entraram, chorando, e me deram
vários beijos. Tentei erguer o tronco para abraçar os dois, e tudo em mim doeu
quando os abracei, e mamãe e papai me contaram que não havia nenhum tumor no
meu cérebro, e que minha dor de cabeça tinha sido causada por má oxigenação, o
que por sua vez foi provocado pelo fato de meus pulmões estarem nadando em
líquido, um litro e meio (!!!!) que tinha sido drenado com sucesso do meu
peito, e era por isso que eu talvez fosse sentir um leve desconforto ao deitar
de lado, onde havia, ei, veja isso, um tubo que ia do meu peito até um
recipiente de plástico com líquido até a metade, que, juro, parecia a cerveja
preferida do meu pai. Mamãe me disse que eu iria para casa, de verdade, que só
teria de fazer essa drenagem de vez em quando e que precisaria voltar a usar o
BiPAP, o equipamento noturno que força a entrada e a saída de ar dos meus
pulmões de araque. Mas eu tinha feito uma tomografia computadorizada de corpo
inteiro na primeira noite no hospital, segundo eles, e a notícia era boa:
nenhum crescimento de tumor. Nada de novos tumores. A dor no meu ombro tinha
sido falta de oxigenação. Dores de um coração trabalhando mais que o normal.
— Hoje de manhã a Dra. Maria nos disse que continua otimista
— papai falou.
Eu gostava da Dra. Maria, e ela não era de mentir, por isso
adorei ouvir aquilo.
— Isso é só um detalhe, Hazel — minha mãe disse. — É um
detalhe com o qual conseguiremos conviver.
Assenti com a cabeça, e então a Minha Enfermeira Alison meio
que
fez com que eles saíssem, educadamente. Ela me perguntou se
eu queria umas pedrinhas de gelo e eu disse que sim, e aí ela se sentou na cama
comigo e me deu as pedrinhas na boca, de colher.
— Então você ficou fora do ar alguns dias — a Alison disse.
— Humm… O que você perdeu?… Uma celebridade se drogou.
Políticos brigaram. Uma outra celebridade usou um biquíni que revelou uma
imperfeição corporal. Um time venceu um campeonato, mas outro time perdeu. — Eu
sorri.
— Você não pode continuar se isolando do mundo assim, Hazel.
Você perde muita coisa.
— Mais? — interroguei, fazendo um gesto com a cabeça na
direção do copo branco de isopor que estava na mão dela.
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